Imagem Humberto Werneck
Colunista
Humberto Werneck
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Pé frio, cabeça quente

Admita: é decepcionante sair de uma consulta médica sem uma receita nas mãos

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

06 Dezembro 2016 | 02h00

Durante anos, Pedro Nava deixava seu apartamento, no velho prédio onde viveu metade da vida, no bairro da Glória, cruzava o hall e, no mesmo andar, assumia a condição de médico reumatologista, um dos mais reputados do Rio de Janeiro. Quando ali estive pela primeira vez, sem reumatismo algum, o dr. Nava já não exercia a profissão. Fazia pouco mais de uma década que ele, à beira dos 70, irrompera na paisagem literária como caudaloso memorialista, o maior que já tivemos, assumindo, assim, em regime de monogamia, um talento praticamente desmobilizado desde o fecho da primeira juventude.

Certa manhã de maio de 1983, às vésperas de completar 80 anos, Pedro Nava me levou ao antigo consultório, instalado num salão com pé-direito altíssimo. Sentou-se por detrás de um vetusto birô, como em outros tempos se dizia, e indicou uma cadeira de braços em frente a ele. Quando, em vão, tentei puxá-la para perto da mesa, Nava riu, como quem tivesse pregado uma peça: tinha mandado aparafusar a cadeira no assoalho, para evitar, justificou, que pacientes mais carentes acabassem no seu colo.

Pela primeira vez, parei para pensar no desamparo que, em doses variáveis, bate em mim, quem sabe em você também, durante uma consulta médica. Desamparo que, às vezes, vem misturado a uma inconfessável satisfação por nos sentirmos numa súbita berlinda, já que o assunto único, ali, somos nós. Nossa coqueluche, nossa catapora, nosso prontuário cirúrgico e hospitalar. Mais: a incidência de determinada doença que desfolhou boa parte de nossa árvore genealógica. As tias que, para além talvez das coincidências, morreram todas do mesmo mal. A intrigante insistência da pancada seca dos enfartes, a reprise de determinado tipo de tumor. O pai que por pouco não virou caso médico, tão rara é a doença que nos levou à orfandade.

 

Vá me dizer que também você não sente alguma excitação, a palavra é esta, quando o médico se põe a escarafunchar o histórico de sua saúde. E também, mesclada ao alívio, uma ponta de decepção, diante da notícia de que não se achou problema algum. Do outro lado da mesa, o doutor pode estar atento a essa eventualidade. Quem nunca ouviu falar de médicos - Pedro Nava era um deles - que, para não desapontar o impaciente, inventam uma anormalidade qualquer, benigna, à qual irá corresponder uma receita, algum placebo, para que a criatura não saia com as mãos vazias?

Escrevi, faz tempo, sobre um camarada que chamei de “hipocondríaco sem remédio”. Pois bem, faltou coragem para admitir que também sou um pouco assim, hipocondríaco, incurável mas com muito remédio, cada vez mais.

Gosto muito, confesso, de uma boa anamnese, aquele interrogatório sobre a saúde atual e pregressa, quase sempre extensivo aos familiares. A sabatina mais esmiuçadora pela qual passei aconteceu na primeira vez que fui ao consultório de um homeopata, de onde sairia, mais de hora depois, levando um verdadeiro buquê de florais. Que perguntas mais inesperadas ouvi ali! Estava vendo o momento em que o doutor iria perguntar se eu tinha tomado chuva, e, ante a negativa, receitar: “Então tome. Dois copos”.

Numa ocasião me consultei com um médico, alopata, esse, que me virou pelo avesso, na indisfarçável esperança de que eu fosse o seu primeiro paciente a padecer da doença de Crohn - insidiosa inflamação do trato gastrointestinal, traduziu, à beira da euforia de uma estreia. E se for?, consegui indagar. Pausa terrível, nublada pelos mais negros presságios. “Você tem um bom psicoterapeuta?”, desembuchou ele, sílaba por sílaba, e pôs-se a explicar que eu precisaria me armar para padecimentos vitalícios. Não conteve a frustração quando reiterados exames eliminaram a hipótese na qual investira. “Ainda não”, terá ruminado o doutor, “ainda não...”

No consultório high tech de um mago da medicina ortomolecular, em frente a enorme tela que amplificava imagens de um microscópio de última geração, ao qual fora submetida uma gota de sangue meu, tive o dissabor de presenciar o espetáculo de hemácias, leucócitos e neutrófilos a nadar de lá pra cá, qual tubarões e garoupas num aquário. Como me senti? Como a lagartixa que contempla, a um palmo de distância, a ponta saltitante de seu rabinho recém-amputado. 

Outra gota, essa de sangue coagulado, encheu a tela com o que parecia ser o chão gretado de um açude nordestino reduzido a nada. Em busca de consolo na literatura, concluí que havia em mim, na falta de um Graciliano, ao menos o solo estorricado sobre o qual perambula a pobre gente de Vidas Secas.

 

Não precisou de tão afiada tecnologia o velho acupunturista chinês com o qual me consultei por aquela mesma época. Antes de dardejar agulhas certeiras, o sábio chim esquadrinhou minha carcaça com mãozinhas secas e percuciente olhar amendoado, antes de proferir o mais preciso e sintético parecer a respeito do que comigo se passava, ou passa ainda:

- Pé frio, cabeça quente! 

Mais conteúdo sobre:
Humberto Werneck

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.