Bob Sousa/Divulgação
Bob Sousa/Divulgação

Pazes com o passado doloroso

Nelson Baskerville reconcilia Caim e Abel em Luis Antonio - Gabriela

Jefferson Del Rios, O Estado de S.Paulo

09 de junho de 2011 | 00h00

O recente noticiário em torno de Lea T, modelo transexual, confere novo relevo à temporada de Luis Antonio - Gabriela, de Nelson Baskerville. Os dois casos são nuances da sexualidade que contraria a psicobiologia e as estruturas culturais estabelecidas. Ao mesmo tempo, são situações distintas. Lea T é transexual, o fenômeno da natureza que faz alguém ter a psique feminina em um corpo de homem. O travesti é o homossexual que deliberadamente representa uma mulher.

A diferença está nos destinos de cada um. Leandro tornou-se Lea e apesar das dificuldades conseguiu criar seu espaço na moda e vida; Luis Antonio virou Gabriela, teve uma existência em parte festiva e em parte trágica. Nela envolveu seriamente o irmão, o ator e diretor Nelson Baskerville, que só agora exorciza e, na medida do possível, pacifica um passado doloroso.

É dele o argumento que resultou na peça (escrita por Verônica Gentilin) e que transformou em um espetáculo tenso, mas compassivo. Realiza no palco a reconciliação poética que não houve na prática. Porque há nuances e claros-escuros entre o que é representado e a memória que Baskerville corajosamente põe no programa.

Em suas palavras: "O Tonio (Luis Antonio) era aquele irmão, oito anos mais velho, que só poucos amigos sabiam da sua existência, que além de me seduzir e abusar sexualmente, fazia com que muitos dedos da cidade de Santos fossem apontados para nós, "os irmãos da bicha", "a família do pederasta" e outros nomes. Sou obrigado a confessar que a notícia da morte dele não me abalou".

Como em um enredo digno de Almodóvar, essa trajetória tem reviravoltas insólitas, momentos cômicos, outros cruéis, e até uma parte que se passa na Espanha para onde Luis Antonio vai sem avisar a família. Desaparece intencionalmente. Quando localizado em Bilbao, já é o travesti Gabriela. Por estranha ironia, atualiza uma antiga canção de Nelson Gonçalves: "Dolores Sierra vive em Barcelona/Na beira do cais/Não tem castanholas e faz companhia/A quem lhe der mais".

Uma irmã, por fim, vai atrás desse desgarrado, uma vez dado como morto, para preencher 30 anos de silêncio. O fim não é fácil e a obra não se nega a dizê-lo. Há evocações penosas, chances perdidas, desencontros, mas Baskerville chega a uma despedida da melhor maneira que conseguiu: "Fiz esse espetáculo".

Para tanto, expôs todo o drama familiar do pai viúvo e com seis filhos, o segundo casamento com uma viúva com mais três, a mulher que criou Nelson. O equilíbrio caseiro alterado pelo homossexual/travesti que leva surras horrendas do patriarca e que tinha o seu lado sombrio de molestador de crianças.

Subitamente, Luis foge para o exterior onde viverá até a decadência sob os efeitos de silicone, drogas e doença. Nele habita uma espécie de Jó e de filho pródigo que não volta à casa. A peça não quer provar nada. É relato pessoal ou, se for para teorizar, a condensação dramática de estudos e ensaios como, entre tantos, Sexualidades Ocidentais, de Philippe Ariès e André Béjin.

Como anjo caído, o irremediável solitário Luis Antonio - Gabriela sai aos poucos de cena por intermédio de postais escritos em "portunhol" e dos devaneios do irmão que lhe estende imaginariamente os braços em um apelo de reconciliação. Cerimônia de adeus em um espetáculo nervoso na representação do elenco coeso e com soluções visuais (cenário, figurinos e iluminação) que instauram um clima entre o bordel e o hospital.

O que se assiste são painéis de meias-verdades, busca do tempo perdido, melodrama e cenas quase bíblicas de redenção. Com talento e sinceridade, Nelson Baskerville consegue, à sua maneira, reconciliar Abel com Caim.

LUIS ANTONIO GABRIELA - Galpão do Folias. Rua Ana Cintra, 213, Santa Cecília, telefone 3361-2223. 5ª a sáb., às 21 h; dom., às 19 h. R$ 30. Até 17/7.

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