Leonardo Soares/AE
Leonardo Soares/AE

Pavement e o doce sabor da imperfeição

Banda reafirma mito em concerto com plateia menos animada do que calculado

Jotabê Medeiros, O Estado de S.Paulo

22 de novembro de 2010 | 00h00

Tudo que é imperfeito - a voz desafinada de Stephen Malkmus, o desencontro de guitarras, o berro do percussionista, o timing dos pedais - é revertido em benefício do Pavement. É a banda que, por excelência, ao construir o seu culto nos anos 1990, incorporou o defeito e a falta de certezas ao repertório do rock. É seu trunfo, e foi disso que viveu o seu retorno, na madrugada de domingo, no Playcenter, em São Paulo, à frente do público do Planeta Terra Festival - uma multidão estimada pelos organizadores em 22 mil pessoas.

Queimando a lenha. Nos anos 1990, o Pavement viveu uma década brilhante, e depois sobreviveu de juros e correção monetária. Reformado, o grupo mostrou que ainda tem muita lenha para queimar. A plateia é que se animou muito pouco, pegando embalo somente nos hits, como Grounded (a segunda da noite), Shady Lane e Cut Your Hair.

O ápice da retomada tropical do Pavement se deu quando Stephen Malkmus, o mais famoso falsete do indie rock, entoou a canção Stereo. Até aí, o público ainda estava ligado. Mas depois a animação foi caindo, como se o grupo tivesse perdido a capacidade de fazer alistamentos coletivos que foi sua marca noventista, com aquela desencanação típica de uma época.

O Pavement tem como marca jamais apelar para a demagogia fácil do show biz, de ficar acariciando o ego da plateia. Já na primeira música mostrava que não faria isso: abriu o show com Gold Soundz, o segundo single do segundo disco da banda, Crooked Rain, Crooked Rain, de 1994, uma música que não fez grande carreira na época (o sucesso mesmo daquele álbum foi Cut Your Hair, hino alternativo até hoje).

Só na terceira música é que veio Perfume, do álbum Slanted and Enchanted (1991), disco de estreia da banda - para se ter uma ideia da importância deste trabalho: compareceram também In the Mouth a Desert, Here, Conduit for Sale! e Summer Babe. Do álbum Brighten the Corners, de 1997 (produzido por Nigel Godrich, alquimista de discos do Radiohead), vieram três canções, uma delas Date with Ikea, uma das melhores blitze de guitarras da jornada.

Malkmus falou pouco, e manteve a fleuma de garoto-enxaqueca do alt-rock. O percussionista Bob Nastanovich deu um show à parte, com berros lancinantes e uma lição de hiperatividade no palco, ao contrário dos colegas de banda. "Brasil, finalmente", disse laconicamente o guitarrista Kannberg. O Pavement, em alguns momentos, parece datado, mas também se mostra visionário em outros instantes - antecipou alguns dos movimentos de desintoxicação de excessos dos noughties, sem dúvida.

Curiosas essas bandas que ressuscitam. Seus antigos heróis, fora de forma, sugerem que a vida que julgávamos feita de fases - adolescência, maturidade, meia idade - já não funciona mais desse jeito. O guitarrista do Pavement, Scott Kannberg (que também pilota o interessante projeto solo Spiral Stairs), já um tiozinho de boina, era uma perfeita síntese do seu legado: autoconfiante, vibrante, entusiasmado, satisfeito. Lembra muito a figura roliça de Frank Black, o vocalista e guitarrista e principal compositor dos Pixies, que esteve recentemente no SWU Festival.

Mais que uma volta. Kannberg diz que essa reunião do Pavement sinaliza uma retomada, mais do que uma volta. Desde o último disco da fase áurea do grupo, Terror Twilight, já se passaram 11 anos, e aquele álbum não foi exatamente bem avaliado por seus próprios integrantes. Foi, inclusive, a razão pela qual se separaram. "Desde aquilo, nós tocamos e fizemos música em diversas direções e somos músicos melhores agora, estamos prontos para recomeçar do ponto em que paramos, e acho que isso é muito legal".

Poderia ter dado a impressão de que Malkmus, o único que resistia a reunir de novo o Pavement para uma turnê, não estava muito feliz no palco, mas ele parecia igualmente entediado quando esteve aqui no Brasil com sua banda posterior, The Jicks, tocando no Sesc Pompeia. Ele está imbuído do espírito revivalista. "Toda a música é feita de nostalgia", disse o líder relutante do Pavement. "Um minuto após você ter ouvido aquela canção, você já a está revivendo". O Pavement renova uma nostalgia do tempo em que a molecada não perdia tempo cultivando planos de glória, mas de simples diversão.

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