Pavarotti, cantor de voz belíssima, com dicção impecável

Ao contrário de outros cantores nasceu tenor, com timbre privilegiado e riqueza de coloridos

Lauro Machado Coelho, especial para o Estadão,

06 de setembro de 2007 | 02h05

Um timbre privilegiado, com grande riqueza de coloridos - a sua mais notável qualidade, ele a recebeu como uma dádiva da natureza: nasceu tenor. Ao contrário de cantores como Carlos Bergonzi ou Plácido Domingo, que iniciaram a carreira como barítonos e, depois, reiniciaram os estudos para colocar a voz no registro mais agudo, Luciano Pavarotti era um tenor natural. Dotado, além disso, da mais preciosa das características: um timbre absolutamente inconfundível, que permitia à sua legião de admiradores reconhecê-lo, bastando, para isso, ouvi-lo cantar dois ou três compassos. Veja também:Morre Luciano Pavarotti, um dos mais importantes tenores da históriaPavarotti esteve sete vezes no BrasilOs grandes papéis do tenor Luciano PavarottiHistórias pouco conhecidas do fenômeno PavarottiPavarotti - Nessun Dorma  Os Três Tenores - Nessun Dorma James Brown & Pavarotti Luciano Pavarotti - Ave Maria - Schubert Queen + Luciano Pavarotti - Too Much Love Will Kill You  Esse filho de um padeiro e de uma operária de tecelagem de Módena, na Emilia Romagna - nascido em 12 de outubro de 1935 - não se destinava, de início, à carreira lírica. Torcedor fanático do Juventus, chegou, por um tempo, a pensar na carreira de jogador profissional; mas acabou optando pela de professor, e chegou a obter o diploma elementar. Cantava, entretanto, juntamente com Fernando Pavarotti, o seu pai, no coral Gioachino Rossini, de sua cidade, com o qual viajou para o País de Gales, onde ganharam o primeiro prêmio do Concurso Internacional de Corais de Llangollen. Entusiasmado com esse resultado, Luciano começou, ao voltar para casa, a estudar canto com Arrigo Pola. Dando-se conta do talento de seu aluno, Pola o encaminhou para a classe do respeitado Ettore Campogalliani, professor, entre outros, de Mirella Freni - que também é de Módena e amiga de infância de Luciano (quando o menino nasceu, a signora Pavarotti, que tinha pouco leite, pediu à sra Freni, sua vizinha e colega na tecelagem, que o amamentasse, junto com a recém-nascida Mirella; o que será que havia nesse leite, meu Deus?!). Sob a orientação de Campogalliani, Luciano ganhou o primeiro lugar no concurso de canto que lhe permitiu estrear em Reggio Emilia, em 29 de abril de 1961, como o Rodolfo da Bohème, que estava destinado a ser um de seus maiores papéis. Pavarotti, ator muito limitado, mas cantor de voz belíssima, com dicção impecável, tenor ligeiro/lírico que nunca chega a ter o refinamento de estilistas como Jussi Björling, Carlo Bergonzi ou Nicolai Gedda; porém, supera de longe tenores como Nicola Monti, Diego Oncina ou Cesare Valletti, que tinham-se adaptado aos requisitos do repertório de belcanto Bellini/Donizetti - um repertório que desaparecera com tenores como Alessandro Bonci ou Tito Schipa, naquela época em que Mario Del Monaco, Franco Corelli ou Giuseppe Di Stefano tinham imperado numa linha mais verista.  Ganhador de muitos Grammy Awards e discos de ouro e platina cantou no Brasil pela primeira vez, em um recital no Anhembi de São Paulo, em 1979. A ascensão para o estrelato vinha acompanhada de um cortejo de problemas: as exigências cada vez mais estapafúrdias - como a de transportar para a China toda a cozinha de seu restaurante predileto - e a reputação de ter-se tornado "o Rei dos Cancelamentos". Em 1989, tinha causado grandes repercussões a decisão de Ardis Krainik, diretor do Lyric Opera de Chicago, de romper com ele um contrato que se estendera por 15 anos porque, nos oito últimos desses anos, Pavarotti cancelara 26 das 41 apresentações previstas.  É verdade que, ao lado disso, o cantor envolveu-se em inúmeras causas beneficentes e humanitárias. Criou a Pavarotti International Voice Competition, destinada a revelar cantores jovens, na década de 80. As séries de shows intitulados Pavarotti And Friends, reunindo intérpretes clássicos e populares, levantaram fundos para ajudar refugiados e crianças carentes na Bósnia e na Guatemala, em Kossovo e no Iraque. Amigo da princesa Diana, uniu seus esforços aos dela na campanha para a eliminação das minas de solo. E recusou-se a cantar no serviço fúnebre da princesa, em Westminster, pois "não conseguiria fazê-lo com um nó na garganta". Ter-se tornado, em dezembro de 1998, o primeiro (e único) cantor de ópera a se apresentar no programa Saturday Night Live, da televisão americana, ao lado da cantora pop Vanessa Williams, projetou de forma astronômica o prestígio do artista que, naquele mesmo ano, recebera o Grammy Legend Award, raríssimas vezes concedido.  Após 39 anos de casamento, o tenor se divorciou de Adua Pavarotti, com quem teve três filhos, para casar-se com sua secretária, Nicoletta Mantovani, 34 anos mais nova do que ele, em 2003. Com Nicoletta teve uma filha, Alice, de 5 anos. Os problemas de saúde se sucederam muito rapidamente. Uma cirurgia nas vértebras do pescoço, em março de 2005, prejudicou os planos para a turnê de despedida anunciada no ano anterior. A infecção hospitalar que se seguiu a uma operação da coluna, em janeiro de 2006, forçou o cancelamento de vários concertos. O câncer no pâncreas diagnosticado em junho de 2006 exigiu uma cirurgia de emergência, depois da qual foi anunciado que ele estava se recuperando bem. Em 9 de agosto, Pavarotti foi internado "para observação", segundo declarou Alberto Greco, o porta-voz do hospital de Módena. Mas o diário da cidade, Il Resto del Carlino, informou que ele sofria de pneumonia. Se passarmos em revista as etapas da vida e produção desse popularíssimo cantor, morto aos 71 anos, não é difícil concordar com o julgamento formulado por Renato Mesquita: "Pavarotti fica, na história da ópera do século 20, em um patamar muito elevado, sim; mas pelo que fez na fase inicial de sua carreira. Infelizmente, ele não soube envelhecer da mesma forma que Plácido Domingo, por exemplo, está sabendo."

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