Paulo Pasta expõe arte da sutileza

Certa vez, Paulo Pasta flagrou umhomem esfregando os olhos diante de uma das telas que expunha naocasião, como se fosse necessário despertar os sentidos, limpara vista, para apreender a totalidade daquela pintura, cujoscontornos são tão sutis, cujas cores são tão intensas e suavesque não sabemos ao certo o que temos diante de nós. Quem forvisitar a exposição que será inaugurada amanhã à noite poderácompreender essa "charada" proposta pelo artista, suacapacidade de encantar - ou provocar - usando apenas a sutileza,na forma e na cor."Quando você olha nunca vê direito. Parece que essa éminha dúvida perante o mundo", explica o artista. Aimpossibilidade de reproduzir corretamente em fotografia a obrade Pasta é mais uma prova desse estado de suspensão, dessedesafio que ele se propõe a construir um mundo perfeito, no qualas diferenças são assimiladas e anuladas.É possível descrever sua obra de maneira fria, afirmarque uma tela em que predomina um tom de rosa ou violetaenvelhecido - e que parece ser um pouco a síntese e o resumo desua pesquisa cromática - é, na realidade, uma combinação muitobem calibrada de carmim, terra de Siena queimada, ocre, preto,branco e azul ultramar. Que a faixa que se insinua em meio à cor, que parece uma garrafa espichada e que o pintor apelida de"lápis apontado" (todos os seus trabalhos são sem título, masas figuras retratadas recebem nomes mais curiosos como"elefante" e "pião") decorre da necessidade do artista departir de algo existente no mundo real para criar seu própriomundo tonal ("digo que preciso de coisas para pintar, massomente para não pintar as coisas", afirma).Mas nada disso traduz a potente relação entre asuavidade das formas e a vibração cromática criada em suastelas. À beleza associa-se então uma capacidade de despertarsentimentos um tanto quanto lúgubres, como se tivéssemos diantedos olhos algo que está prestes a se esvair. Segundo o própriopintor, sua obra traduz seu próprio sentimento nessa busca por"incorporar os contrastes, assinalar o descontínuo e a finitudedas coisas". Esse silêncio e essa suposta harmonia escondem noentanto uma postura de permanente curiosidade (é impossívelconversar com Paulo Pasta sem que nomes essenciais da arteocidental, como Cézanne e Matisse surjam quase espontaneamente)e inquietação. "Pinto desconfiando, mas pinto. Não dá para teruma crença positiva diante do mundo moderno", explica.Talvez por isso elas acabem por plantar umaangustiazinha no peito de quem se propõe a decifrá-la. É como sea cor e a forma indefinível falassem diretamente à alma,resgatassem memórias perdidas como as madalenas de Proust.Afinal, diante de uma imagem conhecida, que pertence a nossomundo contemporâneo tendemos a catalogá-la e deixá-la de lado.Mas, diante dessas telas que parecem reproduzir momentosefêmeros, um fim de tarde que está por terminar.Paulo Pasta. De segunda a sexta, das 11 às 20horas; sábado, das 11 às 15 horas. Galeria Nara Roesler. AvenidaEuropa, 655, em São Paulo, tel. (11) 3063-2344. Até 31/12.Abertura amanhã, às 21 horas.

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