Paulo Lins encontra público no Estação Leitura

O primeiro contato de Paulo Lins com os habitantes da favela carioca Cidade de Deus foi como assistente em uma pesquisa comandada pela antropóloga Alba Zaluar. Entre 1986 e 1993, ela resolveu trabalhar com jovens universitários, moradores do local, para entrevistar os envolvidos nos circuitos de tráfico de drogas. "Paulo conseguiu os depoimentos mais reveladores dos mistérios dessa guerra de quadrilhas", escreveu Alba, em artigo publicado no Estado, em 1997. Incentivado pela antropóloga, ele decidiu transformar em romance a experiência vivida, surgindo Cidade de Deus, editado pela Companhia das Letras. Para ler trechos desse livro, além de responder às perguntas do público, Lins participa hoje do Estação Leitura, no Sesc Belenzinho, às 20 horas, com entrada franca. Centrado nos personagens Buscapé e Dadinho, o livro conta com detalhes a rotina de um dos conjuntos habitacionais mais pobres e violentos do Rio. Como pesquisador, Paulo Lins teve acesso facilitado por ter sido morador da Cidade de Deus e por militar nos movimentos de bairro - foi um dos fundadores do cineclube local, participou do movimento negro e da associação de moradores. A íntima convivência (chegou a receber em casa aqueles que inspiraram os protagonistas da história) permitiu uma reconstituição de detalhes a ponto de empolgar intelectuais, como Roberto Schwarz e Paulo Arantes, que o apontaram como a maior revelação da literatura brasileira dos últimos tempos. Apesar de não provocar uma unanimidade (outros críticos não gostaram do que consideram uma narrativa caricatural e pretensiosa), Paulo Lins enfrentou um curioso processo de criação, que teve seu ponto máximo ao descobrir que o material recolhido como pesquisador ainda era muito científico, necessitando, portanto, de uma visão mais humana. Definida a trajetória, ele voltou a entrevistar os moradores da favela, desta vez focando mais sua história de vida. Foi o suficiente para escrever um livro caudaloso (são 548 páginas), com inúmeras situações entrelaçadas (mais de cem personagens são citados) e uma profusão de detalhes sobre assassinatos, caçadas humanas e tráfico de drogas. Da sua casa, observava a movimentação noturna de policiais à procura de envolvidos com drogas. Viu assassinatos, agressões e covardias, e também foi vítima de inúmeras investidas policiais.De sua experiência, deduziu que a repressão não combate o crime por ter os mesmos valores, linguagem e códigos dos bandidos. Dos personagens nos quais se inspirou para escrever o livro, dois morreram em tiroteio com a polícia. Estação Leitura. Com o escritor Paulo Lins. Às 20 horas. Sesc Belenzinho. Avenida Álvaro Ramos, 991, tel. 6096-8143

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