Paulo Humberto pinta sem usar tintas

Na exposição que inaugura nessa terça-feira à noite na Galeria Valu Oria, Paulo Humberto mostra como é possível pintar sem usar tintas, abordando questões como a luz, o movimento e até a cor de forma muito sutil. Nas quatro séries de trabalhos reunidas na mostra são exploradas diferentes técnicas e materiais, desde os mais inusitados, como estopa, até os mais clássicos como a tela branca, por meio dos quais cria ilusórias relações espaciais extremamente enxutas, silenciosas.Como diz Vera d´Horta no texto do catálogo da exposição, "elegância e sutileza, interferência delicada no mundo, esses são os atributos mais presentes na sua obra essencial". Quem conhece a obra gráfica de Paulo Humberto pode surpreender-se com a absoluta síntese que ele obtém em seu discurso artístico. Segundo ele, é exatamente a liberdade com que trata o trabalho gráfico que o ajuda a limpar o excesso de referências na obra plástica."Esses trabalhos são o esqueleto, dos quais elimino a cor, uma série de coisas que podem distrair; em suma, procuro discutir o espaço com elementos de forma essencial", explica ele, apontando seus trabalhos mais recentes. "Os riscos de enfeitar os trabalhos eu deixo na obra gráfica; é lá que posso usar meu lado excessivo, barroco, de brasileiro", acrescenta o artista goiano, que se formou em desenho industrial na Itália e durante anos dedicou-se apenas à arte aplicada até perceber, em 1983, que precisava desenvolver o próprio discurso plástico pessoal.Para ele, o trabalho gráfico é prazeroso, o artístico é sofrido. Cada peça é gestada por longo tempo; os mais diferentes materiais são acumulados ao longo de anos, até que surja a idéia motriz. "São trabalhos de simples execução, mas penso o tempo todo neles, quando estou no dentista, quando estou no trânsito..."É até irônico que o efeito ilusório provocado pelos quadros construtivos que "pinta", usando estopa e camadas de voil, seja similar ao efeito das retículas quando saem de registro, fazendo com que a figura perca a definição o que tanto apavora o designer gráfico. Essas telas, que parecem nuvens feitas à mão, têm um impressionante rigor construtivo. Os campos feitos de estopa (recobertas com voil, criando o efeito de ondas que se movimentam quando há mais de uma camada de tecido sobreposta) obedecem a um desenho geométrico. "Insisti em ficar no campo do jogo ótico, sem remeter à idéia de natureza."É impossível olhar a exposição de Paulo Humberto sem ver por todo lado os ecos da arte construtiva brasileira e mais especificamente da obra de Mira Schendel, com quem conviveu por algum tempo. Mas nem só de afinidades é feito o diálogo entre pensamentos artísticos. Entre suas principais influências, Paulo Humberto cita Amélia Toledo. "Aprendi muito com ela sobre o processo de formulação de um obra, vendo como elas nascem e evoluem", explica.Na série de 21 caixinhas de acrílico que encerram diferentes retângulos negros - e que são uma espécie de continuidade ainda mais rigorosa das caixas habitadas por papéis de seda, folhas de cobre e outros elementos mostrada em sua exposição de 1998, realizada na mesma galeria - também reina o silêncio e as formas pouco afeitas à natureza e ao homem. "Talvez esse seja o trabalho menos comunicativo da exposição."Mas há outras duas séries, nas quais Paulo Humberto se permite uma maior liberdade: os quadros negros e os pratos. A primeira delas parte de um processo similar ao das pinturas com estopa, mas os canutilhos de plástico preto que utiliza para "desenhar" criam um desenho mais livre, enquanto a cor negra dá um peso e uma intensidade maiores do que as etéreas paisagens brancas.Já os pratos parecem indicar o rumo da conciliação na obra de Paulo Humberto. Eles falam mais do que as rigorosas construções ou as curiosas contraposições de materiais inusitados, mas conseguem preservar o tom de absoluta secura e economia que Paulo Humberto sempre buscou para sua arte.A idéia surgiu quando o artista foi convidado, no ano passado, para participar do leilão de pratos em benefício do Museu Lasar Segall. Como abandonou a pintura há vários anos, Paulo Humberto resolveu subverter o espaço, transformando o prato de suporte em escultura. Como um cientista maluco, o artista criou pratos com enxertos, com um evidente toque surreal. O processo é simples. A "colagem" é feita com os pratos ainda moles. Em seguida, eles são levados ao forno por duas vezes, processo durante o qual 70% da produção é perdida.Paulo Humberto. De segunda a sexta, das 10h às 19h; sábado, das 11h às 14h. Valu Oria Galeria de Arte. Alameda Gabriel Monteiro da Silva, 1.403, tel. 883-0811. Até 3/10. Abertura, amanhã às 21h

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