Paulo Goulart era um trabalhador incansável em cena

Paulo Goulart era um trabalhador incansável em cena

Ator, que morreu na quinta,aos 81 anos, foi produtor e intérprete de primeira linha

Jefferson Del Rios, Especial para O Estado de S. Paulo

13 de março de 2014 | 20h52

Paulo Goulart tinha o maravilhoso defeito de ser simpático. Uma vez, um diretor que o queria como policial grosseiro, ficou bravo: “Paulo, você pode parar de ser simpático?”. Apesar deste “defeito”, Paulo foi convincente e, como sempre, grande ator. Era esta sua alma, sua persona, seu temperamento. Aquele homem enorme como sua bela voz nos encantou por décadas em dezenas de interpretações. É um detalhe sutil mas que conta – como detestar Paulo Autran ou Orson Welles? Paulo é dessa raça.

Trabalhador infatigável do palco – à frente ou ao lado de um clã de artistas –, foi produtor e intérprete de primeira linha (a banalidade dos sites e portais dirão prioritariamente apenas o que fez na TV). Paulo foi bem mais. Era o dono do palco. Tinha o que na profissão se chama de “autoridade cênica”. Paulo chegava e, com ele, o encanto do teatro, desde o antigo Teatro de Alumínio, onde conheceu a sua Nicette Bruno – eles são os pais de Beth Goulart, Barbara Bruno, Paulo Goulart Filho e avós de Vanessa Goulart, todos nas artes cênicas.

Realmente, Paulo – não é novidade no mundo dos intérpretes – tinha um modo de representar em que a maior agressividade não impedia um calor humano natural. Se ele não fosse muito bom, teria sido um canastrão, mas ele era muito bom. De certa forma, é dessa química misteriosa que se faz Procópio Ferreira e Orson Welles. Era sempre um prazer vê-lo interpretar, como é sempre um presente ver Nicette em ação, e os filhos todos.

Vamos a algumas lembrança: Paulo em Orquestra de Senhoritas, de Jean Anouih (1974): ele travestido de mulher, uma matrona de seios enormes que quase nos matava de rir – sim, o mesmo ator que, anos antes, no policial que deveria ser truculento, irritou o diretor porque era levemente boa praça. Seria O Olho Azul da Falecida, o humor negro de Joe Orton (1968), direção de Antonio Abujamra? E mais: Paulo aquecendo o Festival de Inverno de Ouro Preto com as irreverências de Lá, de Sérgio Jockyman (1969).

As datas estão embaralhadas, mas o que conta é registrar a presença magnética que Sábato Magaldi, o mestre dos críticos, sublinhou: “Paulo Goulart não perde a oportunidade cômica, ressaltando sempre o conflito entre a postura exterior e o íntimo prestes a explodir”. Eis o detalhe: “prestes a explodir”. Um artista talentoso e um homem amável nos deixa quase discretamente. Tinha sólidas convicções espirituais e por elas e sua fé podemos pensar que está bem. Fez a sua passagem depois de nos ter iluminado.

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