Paulo Coelho, de volta à magia

Chega às livrarias amanhã O Aleph, primeiro livro do autor pela Sextante e que marca seu retorno à não-ficção

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

23 de julho de 2010 | 00h00

Aleph é a primeira letra de diversos sistemas de escrita e normalmente simboliza o início de algo. É ainda o título de uma das principais obras do escritor argentino Jorge Luis Borges, provavelmente o ponto mais alto de sua narrativa ficcional. E, a partir de amanhã, quando chegar às livrarias brasileiras, O Aleph surge também como o mais recente livro de Paulo Coelho, que marca sua estreia em nova editora, a Sextante.

Na verdade, marca também sua volta à não-ficção ao relatar, em primeira pessoa, a sucessão de dúvidas sobre sua fé que o atormentou em 2006. Não foi algo passageiro ou fugaz - Coelho mostra que, para se reaproximar de Deus, era preciso reavivar experiências, como viajar e buscar novas formas de conexão com as pessoas. Assim, comungando com a observação de Borges ("O que a eternidade é para o tempo, o Aleph é para o espaço"), o escritor empreendeu, entre março e julho daquele ano, uma grande peregrinação pela Europa, Ásia e África a fim de decifrar os mistérios que incomodavam seu íntimo.

A motivação veio de J., seu mestre espiritual: "Está na hora de sair daqui, reconquistar seu reino." "A fé não é algo estático, mas uma dinâmica constante", diz Coelho em uma entrevista divulgada pela Sextante - o escritor ainda não conversou com a imprensa por estar em mais uma peregrinação por Santiago de Compostela. "Portanto, eu não chamaria isso de crise, mas de um comportamento normal, com altos e baixos. Uma fé que se cristaliza perde seu sentido e se transforma em fanatismo. A fé cresce quando é alimentada pela dúvida e pelos questionamentos interiores."

Logo no início do livro, Coelho revela sua preocupação em tratar de um questionamento espiritual justamente no momento em que o planeta é assolado por sérios problemas materiais, como fome, desemprego, guerras. "Todos querendo resultados imediatos para resolver pelo menos alguns dos problemas do mundo ou de sua vida pessoal (...) e eu aqui, querendo seguir adiante em uma tradição espiritual cujas raízes se encontram em um passado remoto, longe de todos os desafios do momento presente?", indaga-se.

A decisão se justifica, acredita ele, graças ao raciocínio de que a ordem mundial só poderá ser conquistada a partir do momento em que existir primeiro a ordem pessoal. "A viagem não foi para encontrar a resposta que estava faltando na minha vida, mas para voltar a ser rei do meu mundo. Estou de novo conectado comigo e com meu universo mágico à minha volta. É isso que faz a vida interessante: acreditar em tesouros e milagres", escreve.

Durante a peregrinação, realizada principalmente pela Transiberiana (rede ferroviária com mais de 9 mil quilômetros que conecta a Rússia europeia com as províncias do Extremo Oriente russo, Mongólia, China e Mar do Japão), o escritor descreve o esforço de se despir de seu ego e orgulho para se abrir a sentimentos mais nobres como amor e perdão.

Trágica paixão. Um dos momentos mais interessantes da narrativa é o surgimento de uma jovem leitora, Hilal, que aparece durante a travessia da Rússia e que acredita ter recebido um chamado para ajudá-lo. Mais que uma fã, ela está determinada a conquistá-lo movida por uma trágica paixão que os uniu em uma vida passada. Coelho, que é casado há 30 anos com Christina, trata a situação com cavalheirismo ("Tenho certeza de que é uma questão de tempo até que ela encontre a pessoa que Deus colocou em sua vida", diz, na entrevista realizada pela Sextante) e aproveita para tratar de um tema delicado, a reencarnação.

O Aleph, portanto, marca a volta de Paulo Coelho às origens, especialmente em obras como O Diário de Um Mago e O Alquimista, que revelam seu fascínio pela busca espiritual. Aos detratores, porém, o novo título é uma tentativa de resgatar tempos gloriosos, ameaçados pelos últimos livros de ficção que não venderam tanto como de costume. Seja qual for o ponto de vista, Coelho continua atraindo muitos leitores, computando mais de 135 milhões de exemplares vendidos em toda sua carreira. Detalhe que não escapa à Sextante, que antecipou a venda de O Aleph para os fãs do escritor, além de rodar 200 mil cópias como tiragem inicial.

TRECHO

"O chão está molhado, imagino que meus tênis tão meticulosamente lavados...

...dois dias antes estarão de novo cheios de lama em mais alguns passos. A minha busca por sabedoria, paz de espírito e consciência das realidades visível e invisível já se transformou em rotina e não dá mais resultado. Quando tinha 22 anos, comecei a me dedicar ao aprendizado da magia. Passei por diversos caminhos, andei à beira do abismo durante anos importantes, escorreguei e caí, desisti e voltei. Imaginava que, quando chegasse aos 59 anos, estaria perto do paraíso e da tranquilidade absoluta..."

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