Paulo César Pinheiro lança seu terceiro livro de poesias

Menino, Paulo César Pinheiro saía para a pesca com o avô materno, que morava numa ilha em Angra dos Reis, um homem alto, rústico, de ascendência inglesa, casado com uma índia baixinha, de cabelos que chegavam quase às pernas. No mar, o avô cantava, um canto sem palavras. Não havia, na casa do avô, nenhum rádio - nem luz elétrica, aliás. Onde aprenderia ele aquela música? Foi o que o neto perguntou. "O mar me ensina", disse o avô. O mar não ensinava nada, percebeu o neto. O avô compunha sem saber que compunha. Antes de fazer 10 anos, Paulo César Pinheiro já se deixara fascinar pelo poder da criação. E naquela pequena casa da ilha, onde passava as férias com a família, começou a escrever poesia, a ensaiar melodias. Na terça-feira (21), Paulinho Pinheiro lança seu terceiro livro de poesias, com noite de autógrafos que começa às 19h30, na Fnac (Rua Pedroso de Morais, 852, telefone 3867-0022). Editado pela Record, Atabaques, Violas e Bambus custa R$ 24 00. Traz 101 poemas, divididos em três blocos, cada um dedicado à expressão particular das três raças que, principalmente, dão forma à cultura brasileira, à música brasileira - os atabaques africanos, as violas trazidas pelos europeus, a percussão e os sopros em bambus dos nativos de antes de Cabral. O assunto já foi tratado por Paulo César Pinheiro em muitas composições e especialmente no samba Canto das Três Raças, lançado - dando título ao disco - em 1976 por Clara Nunes, com quem era casado. "Este livro é uma versão literária daquele samba", diz o poeta - literária porque os versos ali contidos não foram escritos para ser letra de música, mas para funcionar como poesia, mesmo - não que o escritor concorde com a separação rigorosa entre poesia e letra de música. Aliás, Chico Buarque tenta desfazer os limites no prefácio de outro livro de Paulinho, Canto Brasileiro, lançado em 1972, já esgotado. Os versos de Atabaques, Violas e Bambus reconstituem a linguagem usada pelos negros, brancos e índios desde os primeiros tempo, empregando o que, em português, chamaríamos de linguagem de época, e nas outras línguas, de formas puras de expressão lingüística; aos poucos, faz a linguagem evoluir, até chegar aos dias de hoje, com a incorporação de termos étnicos à fala dominante. É um trabalho que se alinha a uma produção literária que durou até os anos 50, com Raul Bopp, Cassiano Ricardo, Guimarães Rosa e mesmo Mário de Andrade e que, por um e outro motivo, foi interrompida: uma poesia que olha para dentro do País, que tenta entender e traduzir seus segredos, sua alma profunda (para traçar um paralelo: o cantador Elomar Figueira de Mello faz isso com sua música de acento medieval e paisagens que vislumbram as barrancas do Rio Gavião, na região de Canudos, Bahia).Atabaques, Violas e Bambus, precisa de um glossário - parte significativa dos termos não está no linguajar urbano cotidiano e parte se desprendeu até mesmo de sua raiz tradicional. Apaixonado pelo assunto, Paulinho tem na cabeça todos esses termos e expressões, que aprendeu convivendo com gente de diferentes partes do País, ouvindo música de tudo quanto é procedência, lendo sem parar sobre cultura brasileira. Sem vaidade, conta: "Até o Nei Lopes, que publicou um dicionário bantu-português, precisou consultar o glossário." Paulo César Francisco Pinheiro nasceu em Ramos, subúrbio do Rio, em 28 de abril de 1949, família paterna do sertão do Cariri, Campina Grande, na Paraíba, família materna das ilhas fluminenses de Angra dos Reis. Três anos depois, a família mudou-se para Jacarepaguá e, um pouco mais tarde, para São Cristóvão. O primeiro parceiro, como já foi lembrado, foi João de Aquino, e a primeira parceria, Viagem, que seria o grande clássico de Marisa Gata Mansa e uma das músicas mais regravadas de Paulinho. Ele tinha 13 anos quando encontrou o violonista João de Aquino, que era muito mais velho - para os padrões de idade: mais ou menos seis anos mais velho. Paulinho tocava um pouco de violão, mas João tocava violão muito bem, embora não compusesse. Eram vizinhos de rua - coisa de três casas os separava - em São Cristóvão, na zona norte do Rio. A família de João ocupava a casa onde havia morado Baden Powell, seu primo. Paulinho mostrou os poemas ao amigo. "Componha, rapaz, você toca, vai saber compor", disse, e nasceu Viagem. Isso foi um ano depois de se conhecerem. Começaram e não pararam mais. João de Aquino mostrou as composições para o primo Baden, que as achou muito boas, interessando-se pelo letrista - e Baden já era famoso, naquela início de segunda metade dos anos 60, parceiro mais constante de Vinícius de Morais, com quem havia composto, entre obras-primas, a coleção dos Afro-Sambas, conhecido na Europa principalmente por causa do Samba da Bênção, que havia entrado na trilha sonora do filme Um Homem, Uma Mulher, do cineasta francês Claude Lelouch. Pois é, mas Baden, gostou das letras de Paulinho Pinheiro, que tinha 16 anos, e encomendou-lhe uma: queria palavras para um samba que contava a história de um capoeirista e violonista baiano, famoso no início do século, Besouro do Cordão de Ouro. Paulinho escreveu: "Quando eu morrer, me enterrem na Lapinha/ Calça, culote, paletó, almofadinha." O samba ficou guardado até 1968, quando Elis Regina o defendeu na - e foi vencedora - 1.ª Bienal do Samba. Foi a primeira música de Paulinho a ser gravada. "No começo, Vinícius ficou com ciúmes", lembra Paulinho. "Afinal, o Baden era o parceiro principal dele e haviam composto coisas como "Samba em Prelúdio, Formosa, Tempo Feliz", tantas belezas, um sucesso atrás do outro", enumera. "E Vinícius era o papa da bossa nova, tinha mais de 50 anos, um diplomata reconhecido como grande poeta - e eu, um moleque de 16 anos, vinha roubar-lhe o parceiro", recorda. "Ele não gostou, não. Mas a culpa não era minha, foi o Baden quem me procurou. Com o tempo, o Vinícius ficou conformado e viramos amigos, eu freqüentava a casa dele, conversávamos muito." A prova do carinho que nasceu está na dedicatória escrita por Vinícius, no verso de uma foto em que aparecem os dois: "Para o Paulinho, de pai pro filho, e de filho pro pai, sem pai e sem filho, sem filho e sem pai, e com muito amor pelo filho que eu poderia ter (e não tive), mas é como se tivesse." Com Baden foram mais de cem músicas. Espantoso? A obra de Paulinho Pinheiro é objeto da tese universitária (para o curso de jornalismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro) A Letra Brasileira de Paulo César Pinheiro - Literatura e Identidade Cultural, de Conceição Lopes, que entre outras coisas, organizou os arquivos do poeta e contou, até janeiro, quase 1.400 composições, das quais 900 foram gravadas e regravadas. "De janeiro para cá, já são mais de cem músicas novas" diz Paulinho. Só com Théo de Barros - um compositor seu contemporâneo, mas que só agora engrenou com ele parceria mais constante - são três séries - uma sobre capoeira, outra sobre marujadas e uma terceira, a suíte Sete Violas, que fala dos tipos diferentes de violas - naturalmente. Um dos autores mais gravados do Brasil - houve momentos em que bateu Tom Jobim, seu parceiro em Matita Perê -, Paulinho não compõe só com figurões. Pelo contrário: vive à cata de autores novos. "Tenho o Baden como exemplo: ele já era famoso, enxergou talento em mim, deu-me ajuda, me fez surgir para o mundo da música; o mínimo que posso fazer é seguir o exemplo", diz. Por isso, ouve tudo o que lhe mandam - e presta muita atenção a quem lhe é recomendado (foi curioso, na edição do Prêmio Visa para compositores, como havia gente desconhecida do grande público concorrendo em parceria com Paulo César Pinheiro). "E já estou na quinta geração de parceiros", brinca. Pegou os antigos: compôs com Pixinguinha, Radamés Gnattali, Ribamar, Mirabeau, Alcir Pires Vermelho; com Baden, Carlinhos Lyra, Elton Medeiros, Théo de Barros, Mauro Duarte, Sivuca; com Sueli Costa, Ivor Lancelotti, Hélio Delmiro, Dori Caymmi, Francis Hime, Edu Lobo, João de Aquino, Maurício Tapajós, Eduardo Gudin, Cristóvão Bastos, João Nogueira; e com Vicente Barreto, Luciana Rabello, Raphael Rabelo, Pedro Amorim, Affonso Machado, Luís Moura, Moacyr Luz, Maurício Carrilho, Guinga, Lenine - a geração mais nova tem Mário Gil, Sérgio Santos... Essa obra fez sucesso nas vozes de Elis Regina, Elisete Cardoso, Clara Nunes, MPB-4, Nana Caymmi, Alcione, João Nogueira Roberto Ribeiro, Beth Carvalho, Simone, Nélson Gonçalves, Ivan Lins, Marisa Gata Mansa, Francis Hime, Tito Madi, Tom Jobim, Paul Mauriat, Sérgio Mendes, Sarah Vaughan - e assim por diante. Queixas? Gostaria que o rádio e a televisão fossem menos exclusivos da música produzida pela grande indústria, que um dia já o abrigou e prestigiou. Pois mudaram os tempos - não mudou o poeta que, sorte nossa, produz, produz, sem desmerecer o já feito - para dar água na boca: " Aviso aos Navegantes, Falei e Disse, Refém da Solidão, Eu, Hein, Rosa, Violão Vadio, É de Lei, A Volta, Menino Deus, Portela na Avenida, Guerreira, Estrela Guia, Mordaça, Velho Piano, Flor das Estradas, Afreketê, Espelho Súplica, O Poder da Criação, Maior É Deus, Saudades da Guanabara, Tô Voltando, Cordilheiras, Rainha Morena, Auto-Retrato, Cinza e Fumaça, A Grande Ausente..."

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