Paulo Borges, o todo-poderoso da moda

Paulo Borges é o dono da bola. Organiza o jogo, faz as regras, posiciona os jogadores e entra em campo. Quando o espetáculo acaba, leva para casa a mesma bola, agora cheia de poder e prestígio. E só. "Eu acho que um dia ainda vou ganhar dinheiro com isso", diz o homem que inventou e tornou real o maior evento de moda da América Latina, a São Paulo Fashion Week. Na edição de verão, que começa quarta-feira, são 47 grifes brasileiras e 1 européia, com investimentos que passam dos R$ 5 milhões. Alojado em seu escritório - nem exuberante nem fashion - no Itaim, ele fala de paixão. "A moda não é roupa. É um estado de espírito, um desejo, envolve arte, arquitetura", afirma. Borges acredita que a Fashion Week foi fazendo, ano a ano, os brasileiros entenderem esse conceito. Até que a moda virou assunto no País. Voltando ao futebol, ele se orgulha de o evento só perder para a Copa do Mundo em espaço na mídia. "Ninguém sabia como fazer quando eu comecei. Nem eu sabia. Mas eu não tinha um olhar mercantilista, tinha um olhar de paixão para a moda e acreditava na minha intuição." A Fashion Week cabia numa pastinha, em quatro folhas de papel, em meados dos anos 90. O projeto elaborado por Borges estipulava um calendário oficial da moda brasileira, ou seja, datas pré-determinadas para lançamentos simultâneos das coleções de inverno e verão das maiores grifes. Nada assim existia por aqui. Os desfiles de moda eram ainda eventos sociais, esporádicos, regados a jantar chique em hotel de luxo. Mas na memória do ex-produtor de revistas de moda e comerciais havia as fashion weeks de Paris, Londres, Nova York. "Na segunda modelo que passava, eu já não olhava a roupa, começava a perceber os fotógrafos, as pessoas da primeira fila, quanto tempo durava o desfile." Borges foi atrás de bancos, shoppings, companhias aéreas que acreditassem na sua idéia. No currículo, a experiência de quatro edições do Phytoervas Fashion, evento que ajudou a produzir. Desistiu. "Cristiana Arcangeli (dona da empresa que dava nome ao evento) queria cada vez mais gente na platéia, cada vez mais marcas." Borges diz que preferia ir devagar. Cristiana afirma que o evento continuou por mais quatro edições do mesmo tamanho e que ele saiu apenas pela necessidade de "renovar a equipe". "Ele é um excelente profissional, faz um trabalho bárbaro." Panelinha - "O projeto é meu, quem vai mandar sou eu e vocês só vão me dar o dinheiro", disse aos diretores do Morumbi Shopping. Ganhou o patrocínio. De 1996 a 2000, passaram por lá as grandes grifes brasileiras - e as que se tornaram grandes por passarem por lá. Uma votação feita por jornalistas, a pedido de Borges, determinou os primeiros integrantes do calendário da moda brasileira. Resultado: Zoomp, Ellus, Forum, Walter Rodrigues, Ricardo Almeida, entre outras. "Dizem que eu faço panelinha, mas não sou eu quem escolho as grifes", defende-se Borges, referindo-se a declarações de estilistas como Carlos Mièle, proprietário da M. Officer, que não participa mais do evento. Uma comissão continuou decidindo o grupo de marcas quando o Morumbi Fashion se transformou e ganhou o nome de São Paulo Fashion Week, em janeiro de 2001. "Ele foi um visionário e apostou, mesmo sem nenhuma ajuda governamental", diz a estilista Clô Orozco, da grife Huis Clos, que participou da primeira edição. Mega - Na quarta-feira, a uma semana do início da 17.ª (a conta vem desde 1996), Borges, de 40 anos, estava aparentemente tranqüilo. Serão 2.500 funcionários, 1.400 jornalistas e uma previsão de 100 mil pessoas passando pelo prédio da Bienal nos sete dias. Apesar disso, nada de ligações nem assessores interrompendo a entrevista. Ele prepara os desfiles, que mostrarão biquínis, enrolado em cachecol e casaco de lã. Perde a serenidade apenas quando fala do governo. "Nós temos uma pá, o governo tem uma escavadeira", afirma. "Se fala muito que é legal exportar, mas não há financiamento, linha de crédito, nenhuma política governamental de incentivo." Mesmo assim, as exportações no primeiro trimestre do ano de toda a cadeia têxtil foram de US$ 344,2 milhões, 27% a mais do que em 2003. O número de empregos diretos está em 1,5 milhão, com mais de 12 mil novos postos de trabalho em 2004. Na empresa que criou para a produção do evento, a Luminosidade, Borges tem quatro sócias e cerca de 20 colaboradores. Nascido no interior - em São José do Rio Preto -, ele mora hoje numa chácara, também no interior. Seus bens são os mesmos de 15 anos atrás. "Não quero helicóptero, Jaguar, ser milionário", diz. "Quero construir algo que vai ficar para sempre."

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