Paulo Betti traz a SP peça de Flávio Márcio

Se colocado contra a parede qual asua escolha? O feijão ou o sonho? Lutando arduamente pelasobrevivência, enredado nas tarefas do dia a dia, a maioria dosmortais não tem tempo para pensar sobre isso. Mas é justamenteesse dilema que vive o personagem interpretado por Paulo Bettina peça O Homem Que Viu o Disco Voador, de Flávio Márcio,que estréia amanhã no Teatro Augusta, depois debem-sucedida temporada no Rio, onde Betti e o diretor AderbalFreire-Filho receberam indicações para os prêmios Shell eGovernador do Estado.O espetáculo tem concepção de Freire-Filho e no elencoestão ainda Vera Fajardo, Paulo Giardini, Hebe Cabral e RodolfoMesquita. A trama central da peça gira em torno de um homem quevê, subitamente, pousar no seu quintal um disco voador. Atéentão ele é um bem-sucedido executivo, mas tudo começa a mudarem sua vida a partir do momento em que as pessoas com as quaisconvive, sua mulher, o filho, os amigos e colegas de trabalhoduvidam de sua história. Mesmo sua posição social começa a ficarameaçada."No momento em que pousa o disco voador - que ele vêpela janela da sala - sua mulher (Vera Fajardo) está falando comuma amiga ao telefone. Fala de banalidades, mas fica incomodadacom a interrupção", diz Betti. O ator ressalta o absurdo dasituação: um disco voador pousa no seu jardim e você não vê enão presta atenção na expressão atônita de quem viu,simplesmente porque sua atenção, naquele momento, estátotalmente concentrada na roupa que vai usar na festa do diaseguinte ou algo tão banal quanto!"O disco voador é uma metáfora nesse texto, cujo tema éna verdade essa divisão entre vida prática e sonho, que fazparte da vida de todos nós", diz Betti. Na peça, o disco voadorserve para detonar uma série de acontecimentos, começando porobrigar esse homem a rever seus valores, a perceber quanto elese distanciou de coisas essenciais, como a sua relação com amulher e com o filho, enquanto investia na carreira e naascensão social.Nesse Brasil que não prima pela preservação da memória,talvez poucos ainda se lembrem do dramaturgo e jornalista FlávioMárcio, que foi um autor reconhecido a seu tempo e morreu em1979, aos 34 anos, de complicações após uma simples operação deamídalas. Entre outras peças, ele é o autor de Réveillon,cuja montagem dirigida por Paulo José em 1975, com Regina Duarteno elenco, fez estrondoso sucesso de público.Mineiro de Juiz de Fora, veio para São Paulo em 1979,onde passou a trabalhar no Jornal da Tarde. Coincidentemente, ele foi "descoberto" como autor teatral por Freire-Filho que,em 1973, tentou encenar uma de suas primeiras peças, À Moda daCasa, mas foi impedido pela censura. Na época, ambos eramjovens artistas em início de carreira. Pouco depois dessatentativa frustrada, Freire-Filho tentou "arrancar"Réveillon das mãos de Flávio Márcio. "Meticuloso, ele nãose contentava com o primeiro fluxo de inspiração. Revia,reescrevia e nunca estava satisfeito", lembra Freire-Filho quesó tem elogios ao talento do autor. "Réveillon é talvez amelhor peça pós-rodriguiana."Ao morrer, Flávio Márcio deixou algumas peças inéditas,o que era de se esperar de um autor que resistia em "soltar"os seus textos, entre elas O Homem Que Viu o Disco Voador. Oque surpreende é que tenha sido tão pouco encenado desde então."Sua linguagem é poética, bonita e ele equilibra com muitotalento humor e drama", observa Paulo Betti. Foi a irmã deFlávio Márcio quem levou o texto a Vera Fajardo para queintegrasse o Ciclo de Leituras Dramáticas promovido todos osanos na Casa da Gávea, espaço criado e dirigido por Betti eFajardo entre outros sócios e artistas. Vera apaixonou-se pelapeça e decidiu realizar a montagem.O Homem Que Viu o Disco Voador. De Flávio Márcio.Direção Aderbal Freire Filho. Duração: 90 minutos. Sexta, às21h30; sábado, às 20 e 22 horas; domingo, às 19 horas. R$ 25,00(sexta); R$ 30,00 (domingo) e R$ 35,00 (sábado). Teatro Augusta.Rua Augusta, 943, São Paulo, tel. 3151-4141. Até 24/3.

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