Paulo Autran grava CD para acervo da Biblioteca Braile

Pausa para a poesia na tarde quentede quarta-feira no Centro Cultural São Paulo. Diante de umaplatéia silenciosa e embevecida - a maioria integrada porusuários da Biblioteca Braile -, Paulo Autran interpreta poesiascomo O Soneto da Fidelidade, de Vinícius de Moraes, umtrecho do Romanceiro da Inconfidência, de Cecília Meireles,e versos de Carlos Drummond de Andrade. Não se tratavaexatamente de um espetáculo. O ator gravou ao vivo o primeiro CDque vai integrar o acervo da Audioteca da Biblioteca Braile queconta atualmente com 4.820 fitas K7 gravadas, entre livros ejornais - todas gravadas por meio de trabalho voluntário.Na platéia, Cláudio Teixeira, de 54 anos, usuário dabiblioteca desde a década de 60, quando ela funcionava naBiblioteca Infanto-Juvenil Monteiro Lobato, aplaudiu emocionado.Ele "reconheceu" Autran. "Eu assisti à peça Morte e VidaSeverina; ele fazia o papel do Mestre Carpina, um espetáculomuito bonito." Cláudio, que perdeu a visão aos 7 anos, éformado em Direito e trabalha com computação. "Gosto de ler,mas o livro em braile é muito volumoso. Fitas e CDs são maispráticos. Posso ouvir um livro enquanto faço outro trabalhomanual ou no metrô, enquanto a leitura exige uma concentraçãoabsoluta."Grávida do primeiro filho, Terezinha Pereira de Souza,de 35 anos, deficiente visual de nascença, é funcionária daBiblioteca do CCSP desde 1996. "Mas, antes, era usuária", diz.Ela cursou a faculdade de biblioteconomia e, como a maioria dosusuários, sentiu necessidade de fitas no período escolar, quandoo volume do que deve ser lido exige rapidez. Seu trabalho, noCCSP, é transcrever os livros para o alfabeto braile, umtrabalho que só pode ser feito com ajuda de um voluntário que lêo volume para que ela faça a transcrição. "Dependendo dotamanho da letra, cada página de um livro comum resulta em trêsou quatro em braile", atesta. E aponta outros problemas: "Atranscrição em braile é muito demorada, enquanto a gravação deum CD é bem mais rápida."Ricardo Sigolo, coordenador do programa de gravação detextos, aponta a vantagem do CD sobre as fitas K7. "Odeficiente visual é muito sensível e exigente em termos de som.O CD, como será gravado aqui, em estúdio, com bons equipamentos,resulta num trabalho de alta qualidade." Ele explica que abiblioteca conta hoje com apenas 12 voluntários cadastrados paragravações. "Só conseguimos atender a 30% da demanda feita pelos1,2 mil usuários cadastrados no programa." Para participar doprograma, basta fazer um teste de voz no CCSP. Fitas K7 podemser gravadas até em casa.Fernando Moreira Salles e a Fundação Djalma Guimarãespatrocinaram o projeto, financiando a compra de equipamentos,como microcomputador e softwares.

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