Paulo Autran festeja 80 anos no palco

Hamlet é a peça que falta para completar o imenso quebra-cabeças que é a carreira de Paulo Autran. Ele nunca conseguiu levar para os palcos a tragédia shakespeariana. Mas terça-feira, a 48 horas do início da temporada paulistana de Variações Enigmáticas, em que divide a cena com Cecil Thirè, a dúvida que atormentava o ator não era o "ser ou não ser" do jovem príncipe da Dinamarca, e sim o "vou ou não vou...conseguir estrear?". Uma gripe fortíssima conseguiu curvar o gigante dos palcos brasileiros e transformou sua voz, um instrumento poderoso e melódico que ecoa pelos palcos há 54 anos, em nada mais que um sussurro. Pontuado, marcante, sábio, mas ainda assim um sussurro.Variações Enigmáticas, peça do dramaturgo francês Eric-Emmanuel Schmitt, tem estréia beneficente hoje no Teatro Faap, faz sessão para convidados no sábado, dia em que o ator completa 80 anos, e entra em cartaz para o público no domingo. Não se trata de uma montagem comemorativa, apressa-se em dizer o ator. A peça estreou em março no Rio de Janeiro e ficou em cartaz durante quatro meses no Teatro Maison de France, fechado havia 17 anos. Depois percorreu as capitais do Sul e chega agora à cidade. "Começar uma temporada em São Paulo equivale a uma estréia, ainda que a peça já esteja sendo apresentada há seis meses. Mas foi uma coincidência de datas, não fiz este espetáculo para comemorar meu aniversário."Em Variações Enigmáticas, Paulo Autran interpreta um famoso escritor norueguês que vive isolado do mundo, em uma casa de frente para o mar. Um dia, cede aos apelos de um jornalista (Thirè) e aceita recebê-lo para uma longa entrevista. O jornalista está interessado apenas em obter informações sobre o livro inédito do escritor, mas a entrevista, que dura uma hora e meia, vai desvendar passagens que seguem muito além da produção literária."Só tenho um adjetivo para esta peça", diz Autran, que também se incumbiu da tradução. "É surpreendente. Há uma revelação a cada cinco minutos, os personagens se transformam o tempo todo." Em Paris, a peça foi montada por Alain Dellon.A idade deixou o seu faro mais apurado? Aos 80 anos você entende mais facilmente os personagens que interpreta? Paulo Autran - Não sei se meu faro ficou mais apurado. Ninguém em teatro tem o dom de olhar para uma peça e dizer: isto vai ser um sucesso. No dia em que eu tiver um faro apurado, eu fico rico.Mas a composição dos personagens hoje é mais fácil? Se você quiser fazer bem, todo personagem é difícil. Fazer malfeito é fácil. Não existe personagem que se tire de letra. Eu não tiro nada de letra até hoje. Preciso estudar muito, preciso me concentrar. Quando um ator me diz "isto eu tiro de letra", eu não acredito. Não uso o tempo como desculpa para dizer "isto eu sei fazer".Em "Variações Enigmáticas" você interpreta um autor que vive isolado. A idéia de se isolar, para produzir ou mesmo para viver, já passou pela sua cabeça? De forma alguma. Eu sou uma pessoa muito gregária. Por isso eu escolhi ser ator. Não posso viver nem trabalhar isolado.Você diria que é mais exigente como ator ou como diretor?Como ator. Eu me considero um ator que às vezes dirige. Somente uma vez eu cometi a ousadia de me dirigir. Foi em Seis Personagens à Procura de um Autor. Eu conhecia bem o texto, já havia feito como ator, então me senti preparado para a direção.Por que você faz tão pouco televisão?Eu fazia mais. Fiz muita TV no tempo em que era ao vivo. Depois que o videoteipe surgiu para facilitar as coisas, eu deixei de fazer. Não gosto. Só fiz três novelas, Pai Herói, Guerra dos Sexos e Sassaricando, com quatro anos de intervalo entre uma e outra. Eu estava afastado da tevê havia dez anos quando me convidaram para fazer Hilda Furação. Aceitei fazer uma participação porque me disseram que ia durar três meses. Durou seis, fiquei p... Não é prazeroso fazer TV, acho muito chato. Costumo dizer que teatro é a arte do ator, cinema é a arte do diretor e tevê é a arte do anunciante. Em geral, eu nem vejo o que faço na tevê.Você conseguiria apontar qual é sua peça predileta? Eu fiz cinco Shakespeare, duas tragédias gregas, fiz Sartre, Arthur Miller, Ibsen, fiz os dois musicais de maior sucesso neste país (My Fair Lady e O Homem de La Mancha). Fica difícil escolher, mas, se tivesse de apontar apenas uma, diria que é Liberdade, Liberdade, de 65. Numa época em que a liberdade estava proibida, eu sentia prazer em fazer uma peça em que esta palavra aparecia duas vezes já no título. Ficamos em cartaz dois anos, depois a montagem foi banida em todo o País.Se você tivesse que citar dois autores, um nacional e um estrangeiro, quem seriam?Shakespeare, que é o autor predileto de todos os atores do mundo. E Nelson Rodrigues, embora eu nunca tenha feito. Eu não gostava do Nelson. E quando passei a gostar não tinha mais idade para fazer. Isso freqüentemente acontece na vida da gente. A gente descobre algumas coisas muito tarde.Você parece estar sempre interessado em trabalhar com novos atores, conhecer jovens diretores. É uma eterna curiosidade?Estou sempre interessado em fazer coisas diferentes, gêneros diferentes, conhecer gente diferente. Para quem está interessado, cada trabalho é uma chance de aprendizado. É um passo à frente que você dá, na carreira e na vida. Aprendo muito trabalhando com profissionais mais jovens.Você estava em plena temporada de "Visitando o Senhor Green" quando começou a se envolver com o texto de "Variações". Sua vida foi sempre assim, emendando um trabalho a outro?Sempre foi. Já sei o que vou fazer quando terminar esta temporada, em janeiro. Vou voltar a dirigir. Desta vez, será uma peça com os atores Karin Rodrigues, Leona Cavalli e Dan Stubach.Variações Enigmáticas, com Paulo Autran e Cecil Thirè. Direção de José Possi Neto. Teatro Faap (Rua Alagoas, 903, tel.: 3662-1992. Ingressos: de R$ 30 a R$ 40. Hoje estréia beneficente, sábado para convidados e domingo para o público, com renda revertida para a TUCCA (Associação para Crianças e Adolescentes com Tumor Cerebral).

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