Paulo Autran em guerra contra o relógio

Os minutos são preciosos para Paulo Autran, que vem regulando sua rotina pelo relógio: as manhãs são dedicadas a detalhadas pesquisas fotográficas - o ator pretende lançar o mais completo livro iconográfico sobre seus 51 anos de carreira; à tarde, dedica-se à direção dos ensaios de O Dia das Mães, o novo texto do americano Jeff Baron, que também escreveu Visitando o Sr. Green, espetáculo em que Autran se ocupa nas noites de quinta a domingo, dividindo o palco do Teatro Augusta com Cássio Scapin. E, nas poucas horas vagas, ele se debruça nos detalhes finais da tradução de Variações Enigmáticas, peça do francês Eric Schmidt, que deverá estrear no segundo semestre."Tenho me dedicado intensamente a todas essas tarefas" conta o ator, eufórico. "Cuidando tanto do passado como do futuro." Autran pesquisa criteriosamente seus arquivos para selecionar cem fotos que formarão o livro a ser lançado pela Cosac & Naif. A edição vai contar ainda com diversas críticas ao trabalho do ator, que as coleciona desde sua estréia, em dezembro de 1949, ao lado de Tônia Carrero, na comédia de Guilherme Figueiredo, Um Deus Dormiu lá em Casa.A pesquisa permitiu a Autran acompanhar a evolução da crítica teatral brasileira. "Inicialmente paternalistas (cheguei a ler conselhos do Paulo Francis de que eu deveria descansar um pouco do palco), os críticos foram, com o tempo, concentrando-se apenas no trabalho de palco, deixando de escrever uma série de textos sobre a mesma peça (como bem fazia o Décio de Almeida Prado)", observa Autran que, aos 78 anos, possui uma trajetória privilegiada, não apenas sob o ponto de vista de seu repertório, mas também do contatos estabelecidos, que o levaram a atuar com uma gama extraordinariamente rica de nomes significativos do teatro nacional.Entre as fotos que pretende selecionar, Autran não se esquece de papéis considerados os mais prazerosos de sua carreira, como os de Creonte nas duas montagens de Antígonas encenadas no TBC ou sua participação em À Margem da Vida, em 1949, no Teatro Amador, do Rio. "Pela primeira vez, quero revelar fotos de momentos particulares, como um banho de mar que tomei no Recife, em 1966, durante a turnê de Liberdade, Liberdade, diverte-se.Ao sabor das reminiscências, Autran revela-se um ator de personalidade forte, que delimita o campo de atuação dos diretores ao fazer questão de preservar o próprio espaço. Ator cuja carreira confunde-se com a trajetória do teatro brasileiro na segunda metade do século passado, Paulo Autran criou um estilo único, com insinuações feitas de detalhes, pausas e pequenas mudanças de atitudes corporais, que permitem saltar de uma atuação cômica para uma trágica, instaurando uma inquietação de qualidade dramática. Nova função - A segurança e experiência convenceram-lhe a continuar investindo na função de diretor e ampliar uma nova, a de tradutor. Entusiasmado com o texto de Visitando o Sr. Green, Autran decidiu montar a peça mais recente de Jeff Baron, O Dia das Mães, cujos diálogos ele mesmo verteu para o português. "É um trabalho ao mesmo tempo divertido e que acredita no ser humano, na necessidade de um final feliz", explica.Segundo o próprio Baron, trata-se de uma peça sobre uma família dominada por uma mulher velha. Os ensaios acontecem durante as tardes, no Teatro Faap, onde o espetáculo estréia depois do carnaval. No elenco, Karen Rodrigues, Petronio Gontijo Sonia Guedes, Ilana Kaplan, Patrícia Gaspar e, para surpresa de muitos, Adriane Galisteu. O diretor defende sua escolha: "Vi sua interpretação em Deus lhe Pague e fiquei muito bem impressionado", comenta. "As dúvidas que restavam foram solucionadas quando a convidei para um teste; Adriane é muito dedicada e acredito que será um dos grandes trunfos da peça."O desejo de inovar é mais um ponto de seu hábil arsenal cênico. Incansável, Autran faz planos que ultrapassam o ano recém-iniciado. Como a montagem de Variações Enigmáticas, peça encenada com sucesso na França por Alain Delon. "Recebi o texto de um amigo, Nélson Seabra, e, depois de ler, fiquei extasiado." O espetáculo trata do encontro de dois personagens, um escritor premiado com o Nobel e um jornalista. O que seria uma simples entrevista resulta em uma poderosa avaliação da relação humana."Os diálogos são brilhantes e conduzem nossa emoção", comenta Autran que, durante o traduzir, recita as falas em voz alta, em busca da melhor versão para a oralidade da língua portuguesa. O início dos ensaios depende apenas de uma decisão particular: se decidir apenas dirigir, Autran começa o trabalho em agosto, no Rio de Janeiro. Caso, porém, realize o desejo íntimo de interpretar, o projeto fica para o próximo ano."O papel do escritor é maravilhoso, mas temo estar um pouco velho para representá-lo", justifica, modesto. "Mas, se decidir atuar, vou convidar um diretor para realizar o trabalho." O desafio, porém, não será demais para um ator pleno dotado de habilidade de comunicação e criação. A grande prova está na eficiente interpretação do Sr. Green que, depois da temporada paulistana, seguirá para outras nove capitais brasileiras e, em novembro, rumará para Portugal.

Agencia Estado,

09 de janeiro de 2001 | 20h52

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