Paulista Esquadrinhada

Graphic novel de 1991 do cultuado Luiz Gê volta às livrarias revisada

Jotabê Medeiros, O Estado de S.Paulo

11 de março de 2012 | 03h11

Luxo, status, poder, obsolescência, decadência, ressurgimento, luxo. Uma biografia da artéria principal de São Paulo, a Avenida Paulista, teria de ser essa espécie de gangorra. Foi com essa ideia em mente que, em 1991, o cartunista Luiz Gê - um dos maiores artistas do gênero no País, apesar de sua produção rarefeita - produziu um clássico das HQs nacionais, a graphic novel Av. Paulista.

Encartado em uma edição especial da revista Goodyear, na época, o álbum virou cult. Mesclando pesquisa iconográfica e histórica (passado, presente e futuro fundidos), além de um senso delirante de ficção, a obra ficou 21 anos na memória e nas coleções particulares de gente muito ligada.

Eis que a companhia das Letras resolveu reeditar o álbum de Luiz Gê. O que obriga essa lenda dos quadrinhos, aos 60 anos, a voltar aos embates estéticos do dia a dia - seu último trabalho foi uma adaptação do romance O Guarani, para a Ática Editora, que já vendeu mais de 50 mil exemplares. Gê sempre esteve na vanguarda. Com o projeto do disco Tubarões Voadores, nos anos 1970, ao lado de Arrigo Barnabé, ele já intuía que o futuro seria da interatividade. "A história não tem um rumo só, ela se abre num leque de muitas possibilidades. O leitor tem de fazer escolhas, definir caminhos para a história."

O álbum Av. Paulista é um petardo político. Você faz uma grande análise da especulação imobiliária em São Paulo, de um certo desenvolvimento predatório.

Eu acho o seguinte: o que estou falando ali é dado concreto, é fato. Eu acho que não estou falando mais do que de coisas que estão comprovadas. Há notícias de jornal anexadas. É todo construído em cima da minha pesquisa. Não gosto da coisa de o cara me categorizar. Apenas tentei fazer uma coisa totalmente referendada, e talvez eu fale de coisas que muitas vezes são esquecidas, não sei por que razão.

Aquele casarão que foi dinamitado na calada da noite na Paulista, aquilo foi um escândalo, mas hoje não se fala mais disso.

É uma tendência brasileira, de virar folclore, de esquecer. É por isso que eu fiz, para que as pessoas possam aprender, porque tudo aquilo continua rolando, e não é legal.

Você viu aquela série Cidades Ilustradas, na qual artistas como David Lloyd, de V de Vingança, e o francês Jano, fazem traduções em HQ para algumas cidades?

Na realidade, Av. Paulista deve ter dado um toque direto (no projeto). Quando fiz o álbum, em 1991, e em 1992, na Bienal Internacional de Quadrinhos do Rio, o gibi ganhou o prêmio lá. E o pessoal do Rio organizou exposições em outras cidades. Em São Paulo, fizeram uma mostra dos meus originais nos quatro metrôs da Paulista. Eram as mesmas pessoas que depois fizeram essa série.

Em meados dos anos 1980, você, o Laerte e uma série de artistas novos iniciaram um trabalho autoral dentro dos jornais.

Eu tive uma coluna no Estadão. Fazia cartuns, charges, quadrinhos, um monte de coisa diferente. Isso é um material que eu gostaria de republicar. É uma ideia que eu tenho alimentado. Trabalhei no jornal até o dia de embarcar para Londres para fazer um mestrado lá. Já publiquei uma parte, os personagens da tira Presidente Reis (Kid Senil e os Darkinhos). Foi para uma coleção da Melhoramentos que misturava tira de quadrinhos com um grande nome da literatura. No meu caso, foi Álvares de Azevedo.

O álbum Av. Paulista, você diz que ele chegou a ter 30 mil encomendas...

Foi o maior número de cartas que a revista da Goodyear teve em sua existência. Ela começou lá atrás, acho que nos anos 1930, e nesse tempo foi o maior número de cartas que receberam. Me disseram que anos depois as pessoas ainda escreviam pedindo.

Você chegou a encontrar algum álbum em um sebo?

Nunca. Olha, as minhas coisas eu sempre tive uma dificuldade enorme de encontrar. E eu sou rato de sebo, adoro aquele barato de garimpar, de achar coisas.

Você é muito amigo do Laerte Coutinho. O que diz dessa decisão dele de andar agora vestido como mulher?

Para mim, o Laerte é um dos grandes artistas brasileiros de qualquer coisa - cineasta, pintor, escultor. Um dos grandes caras. E ele sempre foi muito esperto. Na hora que viu que o sexo forte tinha mudado de lado, ele mudou também. É esperto pra caramba! Fica sempre do lado do mais forte (risos).

O cinema foi uma referência visual para você?

Fiz muitas experiências com Super-8, mas tudo inédito, mostrei só para meia dúzia de pessoas. É uma relação forte que eu tenho, por causa da convergência de linguagens. Gosto muito da geração francesa dos anos 1960, teve bastante influência em mim: Godard, Resnais, Truffaut. E também Buñuel, Kurosawa, Fellini, Pasolini. O cara que mais tem a ver comigo talvez seja o Resnais. Por causa dessa pesquisa espaço-temporal, que eu gosto muito, pesquiso muito, trabalho com ela.

Você viu essa versão do Spielberg para o Tintim?

Vi. Não gostei. Acho que, se ele tivesse se mantido fiel à história original, teria sido melhor. Desperdiçou um esforço, um investimento, e não ficou nem lá nem cá. Os roteiros do Tintim são demais, são marcantes pela simplicidade e complexidade ao mesmo tempo. Virou um festival de efeitos. Há coisas legais, mas comparar com o roteiro do Tesouro de Rakham e o Segredo do Licorne... São mil vezes mais profundas e legais.

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