Paulínia consagra a diversidade

Mostra revela e premia a autonomia audiovisual de camadas antes excluídas

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

24 Julho 2010 | 00h00

Os antigos excluídos se incluíram a si mesmos e triunfaram em Paulínia. 5 x Favela, o coletivo em que moradores de comunidade olham para sua própria realidade, ganhou o prêmio de melhor filme, além vários outros troféus incluindo o do público. Bróder, pungente retrato do Capão Redondo, dirigido pelo cineasta Jeferson De, recebeu três prêmios do júri oficial e mais o troféu da crítica.

O curta-metragem Eu Não Quero Voltar Sozinho, de Daniel Ribeiro, que trabalha um tema gay, emplacou a tríplice coroa: melhor filme pelo júri oficial (além de roteiro), prêmio do público e prêmio da crítica. Ao receber um dos troféus, o diretor brincou: "É uma contradição um filme gay levar tantas "meninas" para casa", alusão ao nome do troféu de Paulínia, Menina de Ouro.

Nos prêmios dados aos documentários, a mesma tendência. O mais premiado, com os troféus de melhor filme e direção, foi Leite e Ferro, de Cláudia Priscilla, um retrato do universo das detentas que amamentam seus bebês na prisão. E Lixo Extraordinário, vencedor do prêmio do público, aborda o cotidiano dos habitantes do lixão carioca Jardim Gramacho sob a ótica do badalado artista plástico Vik Muniz, também ele oriundo da periferia.

Enfim, nunca a perifa, sob suas várias vertentes, esteve tão na fita quanto nesta 3.ª edição do Festival de Paulínia. Mas, para provar que não havia preconceitos contra brancos e heteros, e nem contra o riso e a leveza, o júri oficial premiou de maneira consistente a ótima comédia romântica e dramática de Flávio Tambellini, Malu de Bicicleta, que levou as estatuetas de direção, ator (Marcelo Serrado) e atriz (Fernanda de Freitas). O filme é baseado no romance homônimo de Marcelo Rubens Paiva, colunista do Estado, e conta a história de um paquera paulista que, atropelado no sentido físico e metafórico por uma ciclista carioca, transforma-se em apaixonado monstro de ciúmes. Essa versão bem-humorada de Otelo é bem divertida, além de sutil.

Não existia, portanto, nada de explicitamente ideológico na predisposição dos júris. Apenas o desejo de premiar aqueles filmes que lhes parecessem os melhores entre os concorrentes. Coincidiu de encontrar entre eles ótimas amostras de um cinema que, pela primeira vez, tem no excluído não apenas seu tema, mas agora o agente e testemunho de si mesmo.

Quem expressou muito bem essa situação inédita foi o cineasta Jeferson De, que o ator Jonathan Haagensen chamou de "Spike Lee brasileiro": "A gente começou a década com Cidade de Deus, e os negros que estavam lá, na frente das câmeras, passaram para trás", disse. Verdade. De protagonistas, como são no filme famoso de Fernando Meirelles, os negros e favelados foram "promovidos" a cineastas e passaram a mostrar a sua realidade sob sua ótica, com sua linguagem e em seus próprios termos. É um movimento que vai além do âmbito cinematográfico e deve ser avaliado no nível da sua repercussão social. Paulínia teve a sensibilidade de flagrar esse momento. Premiá-lo significa dar-lhe destaque e realçá-lo diante do público.

Esse é o sentido maior deste festival que, como todos, teve também seus percalços. Um em especial, a presença na competição de um filme como a comédia Dores & Amores, sem qualquer condição de figurar na mostra oficial de um festival nível A. Foi um vacilo da curadoria. Que precisa ficar esperta, pois sempre existe quem se prontifique a fazer generalizações e condenar o festival em seu todo a partir de um único passo em falso. O projeto de Paulínia é muito sério e não pode abrir flancos para a ação do jornalismo marrom. Por sorte, o júri corrigiu esse tropeço principal, e outros menores, e simplesmente limou da premiação os concorrentes mais toscos. Preferiu concentrar prêmios nos filmes que realmente valiam a pena.

O resultado, em si, foi correto, sem ser brilhante. Por exemplo: Bróder e 5 x Favela são obras equivalentes, do ponto de vista da qualidade e da proposta. Poderiam ser equilibradas, por exemplo com um prêmio de direção a Jeferson De. Tivesse agido dessa forma, o júri explicitaria melhor uma tendência subjacente ao festival. O retrato ficaria mais nítido.

Algo semelhante pode ser dito sobre os documentários. Leite e Ferro é ok, um bonito filme, talvez um pouco refém a mais do encanto das personagens para se tornar consistente de verdade. Talvez não seja tão superior assim a Uma Noite em 67 ou a Programa Casé, ambos baseados em rica pesquisa de material histórico e de muito diálogo com o público. Ou mesmo São Paulo Companhia de Dança, um estudo empenhado sobre o corpo humano, a música e a dança. Os três foram solenemente ignorados.

Mesma objeção para a premiação de curtas-metragens. É compreensível que Eu não Quero Voltar Sozinho tenha caído no gosto do júri oficial, do público e de parte significativa da crítica. Tem qualidades para isso. A sofisticada animação Tempestade foi premiada com o troféu de direção para César Cabral, o que lhe caiu bem. Mas um filme tão sensível e belo como o mineiro Ensolarado, de Ricardo Targino, foi ignorado. Está na seleção oficial de Locarno, onde talvez tenha melhor sorte que em seu próprio país.

No todo, fica a lembrança de um belo festival que, ao mesclar obras autorais a outras de maior diálogo com o público, acabou por detectar uma tendência importante: a autonomia audiovisual de camadas antes excluídas. Revelar e premiar essa vertente em seu nascedouro é o que importa. O resto é frivolidade.

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