Paulinho da Viola faz show de arrepiar no Carnegie Hall

Duas semanas atrás, no bairro carioca de Madureira, o "eterno menino" da Velha Guarda da Portela, como o chama Monarco, começou a comemorar seus 70 anos, completados dia 12. Lá, ao ar livre, "Paulinho da Viola - 70 Anos de Samba" foi um grande show de música popular brasileira. Na quarta-feira à noite, na primeira apresentação do menino septuagenário no palco principal do Carnegie Hall, em NY, o show ganhou jeito de concerto, com a marca de nobreza e erudição que Paulinho imprime à MPB e transforma em clássicos seus sambas e chorinhos.

AE, Agência Estado

30 de novembro de 2012 | 11h17

"Timoneiro", parceria dele com Hermínio Bello de Carvalho (de "Bebadosamba", último disco que ele gravou com composições inéditas, em 1996), abriu o repertório de 25 músicas, quase todas reconhecidas e aplaudidas já nos primeiros acordes. O set foi pouco diferente do show em Madureira, mas teve a inclusão de composições instrumentais que enfatizaram o clima de concerto: Inesquecível, choro canção composto por ele em homenagem a Jacob do Bandolim (que no início da década de 1960 criou o conjunto Época de Ouro, do qual fez parte o violonista César Faria, pai de Paulinho); "Um Abraço no Waldir", parceria dele com Cristóvão Bastos; "Sarau para Radamés", também de Paulinho; e o choro de "Pixinguinha Cochichando".

Paulinho já havia se apresentado em NY por duas vezes, no Lincoln Center. "Mas o Carnegie Hall dá um friozinho na barriga!", comentou, depois das duas horas em que tomou conta do palco onde Dvorák e Mahler estrearam sinfonias, George Gershwin e Benny Goodman deram espetáculos históricos, Maria Callas cantou pela última vez e, em novembro de 1962, João Gilberto e Jobim encabeçaram o grupo de brasileiros que iniciou a paixão americana pela bossa nova. "Isso é brincadeira!", admirou-se, ao comprovar a famosa acústica do teatro de 121 anos.

Com ele estavam músicos que o acompanham já em grande parte de sua carreira de 48 anos: Cristóvão Bastos (piano), Mário Sève (sopros), Dininho Silva (baixo elétrico), Celsinho Silva e Marcos Esguleba (percussão), Hércules Nunes (bateria), além de seus filhos João Rabello (violão) e Beatriz Faria (vocal).

Com a entrada do público, a acústica do teatro mostrou como era difícil manter os instrumentos afinados. "O que é aço ia para um lado, o que é náilon ia para o outro", contou Paulinho depois da apresentação. Sem que o público percebesse, a solução foi um intervalo improvisado antes do bloco de composições instrumentais. Todos os músicos saíram do palco, Paulinho murmurou no ouvido do filho e também se retirou. "Falei para ele não se preocupar, afinar primeiro seu violão e tocar o que quisesse enquanto nós afinávamos os outros instrumentos fora do palco." João deu conta do recado tocando uma de suas composições.

O público acompanhou o espetáculo em coro pianíssimo ou bocca chiusa até o bloco dos cinco sambões finais - "Dança da Solidão" (nome do disco que ele lançou em 1972, gravado de novo em "Bebadachama", de 1997, e também com Toquinho, em "Sinal Aberto", de 1999), "Talismã", parceria dele com Marisa Monte e Arnaldo Antunes; "Ame" (dele e Elton Medeiros, gravado em "Bebadosamba"); "Eu Canto Samba" (título do disco de 1989); e "Coração Leviano" (1978).

Alguns brasileiros que sentiam "a falta de um cavaco, de um pandeiro ou de um tamborim" como na letra de "Argumento", deixaram as poltronas de veludo e foram sambar nos corredores laterais. E todo mundo ficou em pé para o bis, com "Tudo se Transformou" e "Foi Um Rio Que Passou em Minha Vida", o hino de amor de Paulinho da Viola para a Portela. Para finalizar mesmo, só na voz e nas palmas, ele homenageou Clementina de Jesus, imitando a voz dela no jongo "Moço Boiadeiro". A próxima apresentação de Paulinho da Viola - 70 anos de Samba será no dia 11, em Buenos Aires. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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