Pauliceia musical desvairada

Publicado pela Coleção Aplauso, da Imprensa Oficial, um luxuoso e muito oportuno livro de Alfredo Sternheim sobre a vida de Diogo Pacheco veio revolver minhas lembranças dos bons tempos em que compartilhei com esse irrequieto maestro algumas aventuras musicais. Estranhamente, eu vinha pensando no velho companheiro. Afinal minha geração deve muito ao Diogo, dos tempos em que ele escrevia neste jornal.

Gilberto Mendes & Erudita, O Estado de S.Paulo

19 de março de 2011 | 00h00

Lembro-me bem quando ele desceu a Santos afim de cobrir o nosso III Festival Música Nova, em 1968, e se hospedou durante toda uma semana no saudoso Parque Balneário Hotel. Escreveu memoráveis artigos sobre tudo que ouviu durante a realização completa de um evento que ainda engatinhava. E reuniu o que mais gostou para uma apresentação única em São Paulo, que foi seguida de caloroso debate. Diogo começava a ser também um produtor.

E como produtor, sua realização máxima foi o histórico concerto de música de vanguarda no Teatro Municipal de São Paulo, em 1965, que chegou a ser comparado à Semana de Arte Moderna de 1922, no mesmo local, devido ao igual escândalo que os dois eventos provocaram. Diogo juntou pela primeira vez no Brasil obras de Boulez, Stockhausen, Maisumi, mais as primeiras audições mundiais de Ouviver a Música, de Willy Corrêa de Oliveira, e meu Blirium C9. Mas o grande choque da noite foi 4"33"", de John Cage, pelo pianista popular Pedrinho Mattar, com um relógio ao lado para despertá-lo. Diogo teve assim a coragem de revelar, para um Brasil ainda absolutamente atrasado em matéria de novas linguagens musicais, talvez a mais revolucionária obra musical da segunda metade do séc. 20, de um compositor praticamente desconhecido de nosso público, como era Cage. E O Municipal Quase Veio Abaixo, segundo esta manchete na primeira página do jornal Última Hora. A repercussão desse insólito espetáculo chegou até a páginas inteiras dos jornais cariocas Correio da Manhã e Jornal do Brasil. E o poeta Décio Pignatari escreveu entusiasmado artigo, Vanguarda em Explosão Sonora, publicado em seu livro Informação.Linguagem.Comunicação, da Ed. Perspectiva.

Outra aventura com Diogo foi minha participação - eu cantava no Madrigal Ars Viva - na Missa de Stravinski, sob sua regência, quando pude verificar na prática, cantando, seu domínio absoluto da linguagem musical de nosso tempo. Aconteceu no espetáculo Alaíde Alaúde, que ele também produziu, com a presença da cantora Alaíde Costa em músicas da Renascença. O som de hoje e de outros tempos num mesmo concerto, mais ainda uma cantora pop, extravagâncias bem do Diogo!

A última vez em que estivemos juntos foi quando ele regeu minha obra Partitura: um Quadro de Gastão Z.Frazão, ainda com a velha Osesp. Pude admirar o élan com que ele conduziu lindamente a massa sonora orquestral entre atonal, serial, com alguns toques timbrísticos das big bands.

Mas temos ainda o Diogo dos trepidantes e saudosos anos 1950, plenos de expectativas, de entusiasmo jovem. Anos do pós-guerra, decididos a recuperar o tempo perdido. E Diogo cria o Movimento Ars Nova, com seu Madrigal e o Quarteto vocal formado por ele, Klaus-Dieter Wolff, Maria José de Carvalho e Nilsa de Freitas Borges, para intensa pesquisa da música medieval-renascentista e de vanguarda, por essa época apresentadas sempre juntas. Rege a Missa de Machaut e a Sinfonia opus 21 de Webern, novidades absolutas. São Paulo vibra de inquietação. Chegavam às lojas Breno Rossi e Bruno Blois, ali pertinho do Teatro Municipal, os primeiros LPs com obras de Boulez, Stockhausen, Berio, Nono, o Panorama da Música Concreta de Schaefer, Henry. E as partituras de toda essa gente, pela Universal Edition, na Casa Bevilacqua, que tinha um notável balconista que sabia das coisas e nos avisava quando recebia as novidades.

O Movimento Ars Viva, de Santos, com seu Festival Música Nova e o também histórico Madrigal, hoje festejando 50 anos de idade, não deixa de ser uma extensão desse movimento paulista Ars Nova, puxada pelo Maestro Klaus-Dieter Wolff.

É tanta coisa interessantíssima para contar, e eu me surpreendo com o fato de que nenhum estudante universitário tenha tido ainda a ideia de fazer um doutorado sobre esse tão importante momento da história musical paulistana, os sonhadores anos 50 do século passado. Diogo está aí, para ajudar. Deixo aqui a sugestão.PP

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