Paula Lavigne rebate críticas e fala dos desafios do Procure Saber

'Grupo está mais forte do que nunca', diz empresária

Entrevista com

Paula Lavigne

Julio Maria, O Estado de S. Paulo

10 Setembro 2014 | 03h00

Menos de um ano depois de enfrentar críticas pesadas com relação à defesa das biografias autorizadas, a empresária e produtora Paula Lavigne volta à cena na liderança da agora Associação Procure Saber, já chamada por ela pela sigla APS. Paula abriu sua casa na noite de segunda, no Rio, para receber músicos e representantes interessados em uma pauta de 12 itens. Falaram de como devem participar da nova gestão coletiva do Ecad, de como podem se proteger de shows com licitações fraudulentas e de como podem fazer acontecer o pagamento de direitos autorais pela internet. Mas nada falaram de biografias.

A APS, diz Paula em entrevista exclusiva, está se fortalecendo para organizar uma classe ainda desunida. "Estamos mudando isso." Por telefone, ela contou como foi o encontro, rebateu as críticas da imprensa à sua liderança e disse que o assunto biografias é uma carta fora do baralho: "Esse assunto veio com o Roberto Carlos e foi embora com o Roberto Carlos".

Como foi a reunião?

Falamos por três horas. Gil falou, Caetano falou, Zezé Di Camargo falou, Carlinhos Brown falou, foi ótima, muito boa.

A questão das biografias não estava na ata?

Não é mais um assunto para nós. A questão básica era a existência da liberdade de expressão ao lado do direito à privacidade, mas não conseguimos ir a fundo porque viramos os “censores”. Não houve discussão. Só falavam isso.

Mas a questão ainda está aberta na sociedade. Há ação no STF e anteprojeto no Senado que ainda podem permitir que elas sejam publicadas sem autorização.

Essa questão não está mais na pauta da APS. Ela veio com o Roberto Carlos e foi embora com o Roberto Carlos (Roberto deixou o grupo no final do ano passado por discordâncias com os rumos do coletivo). Vocês perderam os palhaços, os palhaços se cansaram. A imprensa fez a gente de gato e sapato, chega.

O desgaste foi grande. Você não se arrepende desta briga?

Não me arrependo porque isso não é da minha personalidade, e acho que essa história ainda vai ser muito conversada. Mas, pra gente, ela se esgotou. A discussão não aconteceu. Só ouvíamos que a privacidade não existia mais. A imprensa foi muito agressiva e ninguém discutiu nada. A APS não é para ficar batendo boca. As questões que estamos vendo agora não são nada glamourosas como vocês podem achar, falamos de pagamentos indevidos de ISS, problema com licitação de show, coisas chatas.

Vocês estão se preparando para atuar na gestão do Ecad?

O preço da liberdade é a eterna vigilância, como diz sempre o Tim Rescala. O Ecad, essa caixa preta, chegou onde chegou porque nós nos distanciamos dele.

E como ficam os artistas que não fazem parte do Procure Saber?

Nós não somos um grupo de medalhões da MPB, como já disseram. Estão lá o Emicida, a empresária dos Racionais, o Otto. Vai dizer que o Otto é medalhão? Tem o Nando Reis, o Lenine. E todo mundo pode se associar. Só estamos decidindo o preço com algumas modalidades de associação diferentes para que as pessoas possam pagar valores mais baixos.

Mais baixo do que o R$ 1 mil de adesão que seriam cobrados?

Se você ler o convite que mandamos, vai entender. Esse valor foi para quem quisesse ser um dos patronos do ano no jantar de adesão que fizemos ontem. Queremos, em um mês, ter os valores, preços diferentes para dois ou três tipos de categoria de sócio. Mas o problema é que vocês da imprensa acham mais engraçado arrumar algo que não existe para ser notícia. Estou um pouco cansada, me sinto um pouco palhaça, vocês ficam inventando coisas onde não tem. A gente só está se organizando, e para isso precisamos que os associados paguem. Nós da diretoria trabalhamos de graça e vamos continuar trabalhando de graça, mas temos de ter uma equipe, contador, designer, assessor de imprensa.

O Ecad fala em ‘invasão de privacidade’, diz que não pode ser fiscalizado por outra instituição.

Quando eles disseram isso? Hoje? Fizemos uma reunião com a diretora (Gloria Braga) que estava fofézima. Liga lá pra ver se eles vão dizer isso hoje. Pergunte a ela. A gente quer estar próximo, não dá mais para o Ecad ser nosso inimigo. O Ecad é feito com o dinheiro dos artistas, o Ecad pertence aos autores. E nós, como representantes dos artistas, temos de estar por perto. Eles não podem ter um monopólio. Ficaram assim porque se sentiram donos. Eles vão ter de trabalhar, eles têm de se preparar para cumprir a nova lei senão vai parar todo mundo na cadeia. Acabou a farra.

Quais são agora as prioridades do Procure Saber?

A grande prioridade é termos, em um mês, todos os autores e intérpretes se associando. Estamos abertos a todos, e é isso que temos de fazer agora. Aí vamos acompanhar a regulamentação da lei de gestão coletiva (do Ecad) e vamos fazer comissões para discutir problemas como questões de licitação com fraudes. Quando isso acontece, temos de contratar advogados e dizer que não temos nada a ver com aquela palhaçada. Isso demora, temos de ter grupos de estudo, temos de ter uma comissão que vai estudar a regulamentação da área da música com Tim Rescala à frente, que é do Sindicato dos Músicos. Outra questão é a internet. O YouTube não paga (direitos) há um ano e meio. Eu estava conversando com o (cantor sertanejo) Luan Santana e disse a ele: você sabe que o YouTube não paga direitos há um ano e meio, né? Ele não sabia, a classe não sabe dessas coisas.

Eventuais conquistas do Procure Saber podem chegar à sociedade? Ao consumidor? Ou são apenas de interesse da classe artística?

Vou falar uma coisa bem polêmica, já que vocês gostam de polêmica: nós do Procure Saber ajudamos a aprovar a PEC da Música, lei que isenta de impostos a música brasileira quando é vendida. Isso aconteceu com o livro também, mas essa isenção deveria ter sido repassada no preço. O problema é que o livro não baixou de preço. Essa economia entre aspas foi para o bolso dos editores. Então, temos de acompanhar a regulamentação da PEC da Música para que essa economia seja repassada aos consumidores. Ainda assim, não se trata de uma associação para o público, mas para os artistas.

Você vota em quem?

Na Marina Silva. Não acredito que religião possa afetar o caráter das pessoas. As pessoas de bem, que têm caráter, têm independentemente de terem ou não religião. Ela está fazendo o que pode. Agora, o que vai acontecer depois das eleições, eu não sei.

E se ela ganhar e chamar você para integrar o governo?

Eu só aceitaria o Ministério da Defesa (risos).

Mais conteúdo sobre:
Paula Lavigne Procure Saber

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.