Writer's Desk/Divulgação
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Paul Theroux e a busca do tempo vivido

O mais prestigiado representante da literatura de viagens contemporânea revisitou, 33 anos depois, alguns países do Oriente e, em novo livro, diz que as transformações obedecem a uma 'lei natural'

UBIRATAN BRASIL, O Estado de S.Paulo

26 de fevereiro de 2011 | 00h00

Lidas em voz alta, as palavras do americano Paul Theroux soam como um ranger de dentes. Famoso pelos relatos de viagem, ele escreveu um livro que é um potente e cuidadoso coquetel servido gelado - Trem Fantasma para a Estrela do Oriente, que a Objetiva acaba de enviar para as livrarias, traz suas cáusticas observações sobre a nova visita que fez à China, Turquia, Índia, Birmânia e regiões da antiga União Soviética. Trinta e três anos antes, Theroux esteve nos mesmos locais e a experiência rendeu O Grande Bazar Ferroviário, publicado em 1975 e responsável por incluí-lo entre os célebres autores daquela geração.

"A decisão de regressar a qualquer cenário anterior de sua vida é perigosa mas irresistível, não como uma busca pelo tempo perdido, mas pelo grotesco do que aconteceu desde então", explica ele logo no primeiro capítulo. "Na maioria dos casos é como encontrar a namorada anos depois e mal reconhecer o objeto de desejo naquela figura velha e enrugada." De fato, o escritor se deparou com novos cenários - os trens turcos e indianos não eram mais puxados por locomotivas que fumegavam vapor, tampouco ainda existia a URSS - Theroux conheceu o Turcomenistão, país que, até 1991, era uma república soviética chamada Turcmênia.

Escrevendo em sua própria voz, ele não se sente mais constrangido em fazer as vontades do leitor. Theroux reforça seu velho modo de escrever como se o leitor fosse um hóspede não convidado, chegando na noite errada numa casa escura. Ele se vale principalmente de uma situação particular vivida por homens de idade: a invisibilidade social. "Os mais velhos são tidos como cínicos e misantropos", acrescenta. "Mas não é nada disso, eles são simplesmente pessoas que já ouviram a calma e triste música da humanidade tocada por uma banda de rock de segunda, desesperada pela fama."

A velhice impõe uma transparência que transforma esse homem em um ser à parte, despercebido na multidão. A situação é vista com bons olhos pelo escritor que, maduro, consegue observar melhor quando viaja, sem ser interrompido ou interpelado em suas experiências. A falta de pressa, no entanto, só traz um incômodo: o de ser confundido com um vagabundo.

Próximo dos 70 anos (completa em abril), Paul Theroux ostenta um invejável currículo de viajante. Depois de se formar em Língua Inglesa, ingressou no Corpo da Paz (agência federal americana criada em 1961 a fim de ajudar os países em desenvolvimento) e foi professor no Malauí, na África, entre 1963 e 1965. Nesse período, ajudou o opositor político Hastings Banda a fugir para Uganda, onde passou a viver. Lá, iniciou uma amizade de 30 anos com o romancista V.S. Naipaul, então professor visitante, que terminou de forma turbulenta - em 1996, Theroux desentendeu-se com a nova mulher de Naipaul, Nadira, o que provocou o rompimento. Dois anos depois, ele publicou Sir Vidia"s Shadow: A Friendship Across Five Continents, livro de memórias no qual faz revelações explosivas sobre sua convivência com o colega escritor. Viajou ainda para Argentina, Japão, África do Sul e outros países.

Como nunca escreveu uma biografia, Theroux considera o relato de suas viagens uma forma de compreender a própria vida. E revisitar lugares, como faz no novo livro, o transforma em um espectro, "a sombra bisbilhoteira do trem fantasma", como observa na seguinte entrevista exclusiva ao Estado, concedida por e-mail.

"Se você está realmente sofrendo, então você está viajando", o senhor disse uma vez sobre viajar. Não creio que deseje sofrer, mas o sofrimento ajuda quando se está escrevendo sobre ele?

O sofrimento - isto é, passar um mau momento - é uma ajuda à memória. Com dor, você se lembra de detalhes que não fosse isso esqueceria. E ninguém quer ler sobre um viajante passando momentos maravilhosos. Não há muitos livros de viagem que relatam viagens prazerosas.

Como um viajante mais maduro (e mais velho), o senhor é menos otimista sobre as coisas?

Sou um otimista em ação, e um pessimista em pensamento. Quanto mais se vive mais fica óbvio que as coisas estão piorando: mais pessoas, mais poluição, mais estupidez política, mais destruição do meio ambiente natural, mais urbanização.

Comparando os dois livros, pode-se notar que no primeiro o senhor não mostra muito interesse por assuntos políticos. Pode comentar isso?

Eu não tive nenhum interesse em política em O Grande Bazar Ferroviário, exceto em minhas viagens ao Vietnã - a guerra era loucura política. Eu só mencionei política em Trem Fantasma quando os países eram absurda e grotescamente políticos como o Turcomenistão e Cingapura.

No novo livro, o senhor escreve que "ser invisível é a condição usual do viajante mais velho". Será que essa invisibilidade ajuda a levar as pessoas mais a sério?

Não acho que me faça levar as pessoas mais a sério, mas quando se é invisível, ou não notado, isso é uma grande vantagem para a observação e muito repousante. A pessoa mais velha é como um fantasma. Pessoas idosas são geralmente desconsideradas porque elas não estão interessadas em comprar o tipo de coisas que é geralmente vendido (aparelhos eletrônicos, música, etc.); não se tira lucro do idoso. O mundo abastece os jovens - eles são os compradores e são ingênuos demais para saber que estão desperdiçando seu dinheiro.

Na segunda viagem, o senhor viajou com um BlackBerry e se manteve em contato com sua casa. Isolar-se numa viagem ainda é importante para o senhor?

Isolamento e desconexão são importantes para a verdadeira experiência de viagem. Com a internet e os telefones, etc., é como se você não tivesse saído de casa. É preciso se desconectar e viajar no escuro.

A globalização é um fenômeno com que todo viajante se depara hoje em dia. Até que ponto nosso mundo é plano?

A globalização é como um vírus, uma doença, que engolfou boa parte do mundo. Mas você ficaria surpreso em saber a quantidade de lugares que ficaram intocados pela modernização, e que são melhores por isso. A grande ilusão é que a globalização é uma melhoria. Eu acho o oposto.

Trem Fantasma para a Estrela do Oriente não trata tanto da viagem enquanto tal, quanto do senhor mesmo. Escrever sobre viagens tornou-se um substituto para a autobiografia que o senhor um dia vislumbrou?

O livro de viagens é quase sempre uma forma de autobiografia, com o viajante escrevendo sobre suas reações a um país, e não uma visão objetiva do país. É mais um livro de memórias que um livro de geografia. É por isso que uma das piores experiências que um leitor pode ter é ler um livro de um viajante que visitou seu próprio país - os brasileiros devem odiar os muitos livros de estrangeiros sobre o Brasil!

A escrita sobre viagens tem a ver com lugares. É uma espécie de gênero tridimensional. O que o sr. fez em Trem Fantasma foi adicionar a quarta dimensão: o tempo. Estou certo?

Sim, a quarta dimensão é eu fazer a viagem mais de 30 anos depois. Os lugares haviam mudado, e eu havia mudado, e isso torna a coisa toda mais interessante e digna de fazer para mim. É preciso ter uma razão maior para viajar que a mera curiosidade, embora a curiosidade seja um bom começo.

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