PAUL ROBESON PARA REABILITAR

Produção norte-americana quer resgatar do esquecimento o cantor, ator e militante político que foi perseguido pelo macarthismo

MARIA EUGÊNIA DE MENEZES , NOVA YORK, O Estado de S.Paulo

17 Fevereiro 2013 | 02h07

Sua voz de baixo profundo corria o mundo. E, naqueles anos, não havia, onde quer que fosse, cantor tão popular quanto ele. É de espantar, portanto, o trajeto empreendido por Paul Robeson (1898-1976): da fama ao quase esquecimento. Da ascensão vertiginosa à queda. Da onipresença ao silêncio que hoje cerca seu nome.

Lançados atrás desse rastro, o ator e dramaturgo Daniel Beaty e o diretor Moisés Kaufman se preparam para lançar The Tallest Tree, musical que revisita a biografia do artista e joga luz sobre as razões de seu banimento do imaginário norte-americano.

Com estreia na Califórnia prevista para outubro, o espetáculo foi recentemente apresentado, ainda em fase embrionária, no Guggenheim Museum, em Nova York. "Sabia quem era Robeson, mas quando Daniel me trouxe o projeto eu mesmo me surpreendi com a sua história. É uma vida memorável", comenta Kaufman, diretor do Tectonic Theater Project, responsável por montagens como The Laramie Project, pela qual foi indicado ao Tony Award.

Não foi apenas na música que Robeson se notabilizou. Múltiplas eram as suas facetas e a peça se esforça para reabilitar cada uma delas. Filho de ex-escravo, Robeson conseguiu ser um dos primeiros negros a se formar em direito pela Columbia University. Quando o futebol norte-americano ainda era um esporte majoritariamente branco, ele também foi capaz de tornar-se um jogador profissional. Abandonaria, porém, tanto a curta carreira como advogado quanto o esporte. Isso porque outras duas paixões se impuseram.

Corpo e voz. Já na infância, ele cantava e atuava nos tablados que o pai, pastor presbiteriano, construía. Estreou na Broadway, nos anos 1920, em All God's Chilun Got Wings, polêmica criação de Eugene O'Neill que focalizava um casamento entre uma mulher branca e um homem negro. Mais tarde, encarnaria Otelo, o personagem título da tragédia de William Shakespeare, com o qual surpreenderia plateia e crítica. Daí em diante os convites não cessaram: musicais, filmes, temporadas em Londres e uma especialíssima apresentação dentro do Palácio de Buckingham.

A lista de sucessos de Robeson poderia se estender por mais umas tantas linhas. Turnês que cobriam de Viena a Nairobi, de Paris a Budapeste. Canções interpretadas em mais de 25 idiomas. Títulos que se tornaram clássicos em seu timbre grave, como Ol'Man River e Steal Away.

No entanto, é no contraponto a essas conquistas que a dramaturgia assinada por Daniel Beaty prefere se apoiar. O depoimento do artista a um comitê anticomunista durante a Guerra Fria é tomado como linha condutora da trama. Ponto referencial em torno do qual serpenteia um percurso cronológico: a infância, os anos na universidade, o casamento e as conquistas profissionais.

Na década de 1950, chamado a prestar esclarecimentos sobre suas relações com Moscou, não consentiu em declarar-se anticomunista. A política macarthista confiscou seu passaporte americano. Stálin não queria perder o potencial garoto-propaganda do ideário socialista e lhe concedeu um prêmio. A peça detém-se sobre as consequências dessas medidas.

O fim de sua carreira de astro internacional. Uma maciça campanha na imprensa a questionar seu patriotismo, sua luta aguerrida pelos direitos civis dos negros em seu país, assim como sua defesa da independência das colônias africanas.

As idas e vindas no tempo empreendidas pelo drama musical cumprem ainda uma outra função. Encontramos, nas raízes familiares do protagonista, a chave para entender seu particular percurso. "Existem duas forças que foram essenciais na vida dele: seu irmão, William, e seu pai", aponta Beaty.

De um lado, o irmão o lembrava da importância de defender seus ideais e os direitos dos afro-americanos. Do outro, a influência paterna que o fez subir no palco e abraçar a arte. "Quando eles saem de cena, Robeson precisa aprender a se equilibrar entre esses extermos e a ser fiel aos dois."

DANIEL BEATY

ATOR E DRAMATURGO

Conhecido no cenário off-Broadway pelos espetáculos Emergency e Trough the Night, o ator, cantor e dramaturgo já mereceu prêmios como o de melhor autor do Festival de Edimburgo (2007)

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