Paul Lewis, um rei ao piano

Estreia do músico no Brasil, ocorrida na terça-feira, foi até agora o melhor e mais refinado recital de 2010 em SP

Crítica: João Marcos Coelho, O Estado de S.Paulo

23 de setembro de 2010 | 00h00

Caos no metrô, chuva de granizo e 90 minutos (no meu caso) para chegar à Sala São Paulo, que por isso mesmo não lotou para assistir ao melhor, mais refinado e envolvente recital de piano de 2010 na última terça-feira, dia 21. Ainda bem que um bom público chegou a tempo de testemunhar outros 90 minutos raros com o pianista inglês Paul Lewis. O contraste entre o caos externo e o privilégio de partilhar Mozart, Schumann, Liszt e Beethoven com a genial mediação de Lewis fazem pensar na música como refúgio contra o dia a dia atribulado de todos nós.

Mas música não é refúgio ou berço protetor, como nos "vende" a indústria cultural. Música é para fazer pensar - além do prazer que proporciona, lógico. E, nesse sentido, o presente mais inesperado de Lewis ao público foi o Adagio em si menor K. 540, de Mozart. Em geral os pianistas abrem os recitais como quem mostra suas armas: exibem tudo de que são tecnicamente capazes para subjugar o público com seus talentos prodigiosos - e depois prosseguir, com a plateia já devidamente conquistada.

O Adagio quebrou esse burocrático paradigma. Peça isolada escrita em 1788, possui rara intensidade emocional e exige mais do que uma interpretação apenas elegante e leve. Lewis imprimiu um impressionante "pathos" romântico ao Adagio, convidando-nos a ouvir um Mozart diferente, mais encorpado - e inovador. Enfatizou suas diferenciadas e expressivas progressões harmônicas, em que os acordes de sétima diminuída desempenham papel-chave. O contraste de temas combina-se com uma engenhosidade incrível no desenvolvimento: o segundo tema é invertido e reformulado, interrompendo dramaticamente as sucessivas exposições do tema principal. Qualidades que vieram à tona na leitura de Lewis.

Concessão ao marketing. CDs vendem pouco, bem pouco hoje em dia. Os downloads e a pirataria destroem avassaladoramente esse suporte físico da música gravada. Mas a ordem do recital de Lewis obedeceu à lógica do mercado: ele encerrou com a Sonata Waldstein. Afinal, Beethoven é sua marca, pois ele gravou uma elogiada integral das sonatas e recentemente dos cinco concertos. Beethoven foi o clímax do recital, quando, em termos musicais, a ordem deveria ter sido o Adagio de Mozart e a Waldstein; Vallée d"Obermann, de Liszt, e a Fantasia opus 17, de Schumann.

Em todo caso, nesta genial fantasia, Schumann desconstrói a forma-sonata, cita Beethoven e declara alforriados todos os que visassem, naquele momento, à música do futuro. Não por acaso, colocou como epígrafe versos do poeta Schlegel que dizem mais ou menos o seguinte: "Através dos sons reina/no sonho multicor da terra/um som muito doce perceptível/ para quem estiver atento".

Marcha. Embutiu no primeiro movimento mensagens cifradas de amor a Clara, que no entanto gostou mesmo da marcha central. Tudo aqui é de dificílima execução do ponto de vista técnico, e recebeu de Lewis uma interpretação não só vigorosa como bem pessoal. Sua técnica é tão prodigiosa quanto a da escrita pianística de Schumann.

Da Waldstein de Beethoven, basta dizer que foi superior à versão registrada em gravação, pois é mais solta. Por exemplo, o pianíssimo do início do Rondó final não soa tão diáfano quanto se pôde constatar ao vivo. Tempos atrás um pianista famoso veio pela primeira vez ao Brasil. Havia nos meios musicais o mesmo frisson que cercou agora a estreia brasileira de Paul Lewis. Ao vivo e em cores, mostrou-se comum - era apenas produto das técnicas de gravação.

Lewis, porém, é tão bom ou melhor ao vivo do que em disco. Deve reinar como um dos grandes da cena pianística nas próximas décadas.

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