Leonardo Lara/Divulgação
Leonardo Lara/Divulgação

Patrocínio mobiliza debates em Tiradentes

Oposição entre mercado e experimentação é um dos temas

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

25 de janeiro de 2011 | 00h00

Boa notícia para os tietes de Paulo Cezar Saraceni. O grande homenageado da 14ª Mostra de Tiradentes e sua fiel escudeira - a atriz e produtora Ana Maria Nascimento e Silva, que também é sua mulher - anunciaram um projeto para restaurar a obra do autor. A ideia é dar nova vida a filmes considerados clássicos do Cinema Novo, como o documentário Arraial do Cabo e as ficções Porto das Caixas, O Desafio, A Casa Assassinada, Ao Sul do Meu Corpo, Natal da Portela, Anchieta José do Brasil e O Viajante.

Por enquanto, trata-se de uma intenção, mas ambos acreditam que será possível levá-la adiante. Dizendo-se movido pela paixão - pelo cinema, pela vida -, Saraceni passou recentemente por maus momentos. Sofreu um AVC, a vida parecia encerrada para ele, mas aí a Petrobrás deu-lhe uma sobrevida. No palco do Cine-Tenda, onde ocorre a maioria das projeções de Tiradentes, Ana Maria agradeceu à empresa que salvou seu marido. "O fato de ter feito O Gerente fez Paulo Cezar renascer."

Essa questão do patrocínio tem estado na pauta aqui em Tiradentes. Muita gente queixa-se do sistema de financiamento de filmes, e não apenas os novos diretores; os veteranos, também. Hoje é tudo mais fácil, com a tecnologia digital, mas o dinheiro continua escasso. Era mais fácil fazer filmes na cara e na coragem antigamente, como quando Saraceni dirigiu Porto das Caixas, em 1962.

O filme foi exibido ontem como parte da homenagem ao diretor. Com os defeitos que possa ter, a obra sobre a mulher que mata o marido a machadadas se beneficia da fotografia de Mário Carneiro e da trilha de Tom Jobim. A atriz Irma Alvarez possui uma máscara trágica e Porto das Caixas é embebido pelo espírito ou pela influência de Lúcio Cardoso. Foram os dois escritores que marcaram o jovem Saraceni, - Otávio de Faria, autor da Tragédia Burguesa, e Lúcio Cardoso.

Saraceni veio a Tiradentes para dizer que não tem o menor interesse pelo cinema de mercado. A questão de mercado volta e meia reaparece nas discussões. A Mostra Aurora, menina dos olhos de Tiradentes, prestigia a experimentação (estética e política). No domingo à noite, Toniko Mello veio mostrar Os VIPs, com Wagner Moura. O ator não veio porque está em Sundance, com Tropa de Elite 2. O filme venceu o Festival do Rio. Recebeu verdadeira ovação do público. O diretor diz que se orgulha de participar do atual momento de diálogo do cinema brasileiro com o público. A divisão "experimentação e mercado"dá as cartas em Tiradentes.

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