Patrimônio tomba região da Luz

O Conselho Consultivo do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), em reunião realizada ontem à noite, no Rio, decidiu pelo tombamento da região da Luz, no centro de São Paulo. O conjunto urbanístico tombado reúne nove locais, entre eles a Pinacoteca do Estado, a Estação da Luz, o Jardim da Luz, o Museu de Arte Sacra, a Estação Júlio Prestes e sua gare, o Edifício Martinelli e a Praça Júlio Prestes. Na área, já eram tombados o Museu de Arte Sacra e a própria Estação da Luz.O tombamento foi proposto pelo conselheiro Nestor Goulart e foi aprovado por unanimidade, segundo o Iphan. "O conjunto não foi tombado tanto pelo seu valor artístico, mas pela importância cultural e histórica para a cidade de São Paulo", disse o chefe de Gabinete do Iphan, Luciano Ramos.Na mesma reunião, foram decididos o tombamento do Sítio de Burle Marx, no Rio, e da escultura de Nossa Senhora do Rosário, feita por Aleijadinho e pertencente ao colecionador Renato Whitaker. A obra está exposta no restaurante Antiquarius, na cidade. É raro o tombamento de uma obra privada pelo Iphan. "Acho mesmo que esta é a primeira vez", diz Whitaker.A Estação da Luz foi instalada em 1900. A Estação Júlio Prestes, inaugurada em 15 de outubro de 1938 e revigorada pelo atual governo de São Paulo, atualmente abriga a Sala São Paulo de concertos sinfônicos.Segundo Regina Maria Prosperi Meyer escreve no livro Pólo Luz, recém-lançado, a definição do trecho da cidade que compõe hoje a região começou a surgir entre 1860 e 1870. Começa com a introdução do sistema ferroviário, entre 1867 e 1875, quando se instalaram na cidade a São Paulo Railway, a Estrada de Ferro do Norte e a Sorocabana."O sistema criou um território urbano diretamente influenciado pela presença de uma infra-estrutura com grande capacidade de conduzir o processo de urbanização", assinala Regina. "São Paulo tornou-se, a partir do fim do século 19, um poderoso entreposto ferroviário de porte regional." Entre os anos de 1870 e 1890, ápice desse processo, a cidade duplicou sua população, passando de 32 mil a 65 mil habitantes.Ela define o que chama de "pólo Luz" como a área que compreende as Avenidas Tiradentes e Prestes Maia, a Avenida Duque de Caxias e a Rua Mauá, a Alameda Nothmann e a Rua Três Rios, o que inclui a praça Coronel Fernando Prestes. Há velhos casarões nessa região que se tornaram cortiços recentemente e sua recuperação envolve também uma discussão de cunho social.O tombamento da região da Luz ainda pode agregar outros monumentos, segundo o parecer final dos conselheiros do Iphan. Isso vai depender de avaliações pontuais. O reconhecimento da importância cultural do centro vai também de encontro às reinvindicações da Associação Viva o Centro, que luta pela revitalização da região central da cidade.A região da Luz foi incluída em 1998 no programa chamado Monumenta, um acordo entre o governo brasileiro e o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), que faz investimentos da ordem de US$ 65 milhões num programa de recuperação sustentável do patrimônio histórico nacional. É um programa pioneiro, pois até então o BID costumava investir basicamente em áreas sociais e de educação.O programa, que foi batizado de Monumenta pelo Ministério da Cultura, constituiu um fundo para gerir os investimentos no patrimônio. A cidade de São Paulo - em razão das crises administrativas da Prefeitura - não se habilitou a tempo para receber o montante que seria repassado à recuperação da região da Luz. "Eu creio que, no ano que vem, São Paulo poderá reconquistar essa verba e correr atrás do tempo perdido" disse ao Estado o ministro da Cultura, Francisco Weffort.Para o governo, o investimento do BID em cultura no País significa que o banco está vendo a possibilidade de as áreas do patrimônio histórico adquirirem autonomia econômica após a revitalização. Em Salvador, por exemplo, antes de ser restaurado o Pelourinho despertava a atenção de apenas 8% dos turistas que iam à cidade. Hoje, cerca de 40% dos visitantes passam pelo Pelourinho, um dos sítios urbanos que vão receber verba do projeto Monumenta."A questão do patrimônio histórico tem sido como a história do cachorro correndo atrás do próprio rabo", dissera, na ocasião do lançamento do projeto, o arquiteto Pedro Taddei, coordenador nacional do Monumenta. "O abandono da edificação logo após sua restauração onerava o orçamento da União de maneira incrivelmente nociva."

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