Patrícia Poeta SÃO TANTAS EMOÇÕES EDITORA E APRESENTADORA DO 'JORNAL NACIONAL' Entrevista

E se hoje Patrícia Poeta sorri menos no JN é porque "as notícias não ajudam..."

CRISTINA PADIGLIONE, ENVIADA ESPECIAL, RIO, O Estado de S.Paulo

11 de dezembro de 2011 | 03h08

Disse Cid Moreira a seu substituto, William Bonner, que friozinho na barriga era praxe até para ele, com toda a experiência ali acumulada ao longo de seus 27 anos à frente do noticiário. E Patrícia Poeta, que sentou naquela bancada pela primeira vez há cinco dias, não escapou da sina. "Não foi friozinho, foi friozão", falou ao Estado na quinta-feira.

E olhe que Bonner não recebeu de Cid o bastão em esfera pública, como aconteceu com Fátima e Patrícia na segunda-feira passada. Foram 15 minutos de Jornal Nacional para apresentar a despedida de uma, a chegada de outra e os méritos de ambas.

Os tempos são outros. Passam longe do conceito de que jornalista não deve se envolver na notícia ou tocar fisicamente o entrevistado. Com Patrícia é assim. As mãos se inquietam e acabam por tocar o interlocutor. Não raro, ela aperta as mãos do outro e lhe deseja "boa sorte". Daí a entrevistadora aqui não resistir em tomar-lhe as mãos ao fim da nossa conversa para agradecer muito pelo tempo dedicado com exclusividade ao Estado e desejar-lhe "boa sorte" na nova empreitada.

Você diz que é tímida. Não combina com a imagem da tela.

Sou tímida. Não gosto de ficar falando de mim, realmente não gosto dessa coisa meio celebridade... Gosto de fazer o meu trabalho. Gosto, na rua, quando as pessoas têm um respeito pela notícia que a gente deu ou o programa que a gente faz e vêm falar daquilo. Disso eu gosto, mas ficar dando muita entrevista... Pra falar de mim? Não gosto.

Você costuma ver canais internacionais de notícia? Tem algum referencial de âncora de fora?

Assisto toda semana, sempre que posso. Gosto muito da cobertura internacional da BBC. E admiro, especialmente, o trabalho do Anderson Cooper da CNN. Meu âncora americano favorito era Peter Jennings.

Quanto tempo passou do momento em que você foi convidada para o JN até a estreia de fato?

Dias. Eu realmente fui pega de surpresa. A quinta-feira (1.º/12) foi o primeiro dia que fui à redação para acompanhar (o JN). E uma coisa muito interessante: eu nunca tinha ido até a bancada (que fica em um mezanino).

Chegou a fazer algum trabalho de fonoaudiologia para adaptar ritmo e tom ao Jornal Nacional?

Desde que comecei a trabalhar em TV, tenho uma fono que me auxilia. Não que eu faça toda semana. Quando comecei a fazer um trabalho com o pessoal do Projac, eu não queria ler as coisas como lia no jornal, e aí vai se descobrindo um pouco o tom. Não é uma coisa de ontem.

Se tivesse que orientar alguém que está indo do Fantástico para o JN, quais dicas daria?

Cristina, eu tô aprendendo também. Acho que eu não tô podendo ensinar, no momento. É claro que cada apresentador tem o seu estilo, mas o que muda é o produto. Eu fazia uma revista, em que eu podia falar mais de improviso. Agora eu passei a apresentar um telejornal, que tem uma linguagem universal.

E está sorrindo menos.

As notícias não ajudam. São mais sérias. Quando a gente puder falar de uma vitória da seleção, de um gol do Neymar, vai dar para sorrir. Mas crise econômica na Europa e uma série de coisas no Brasil são sérias, não dá para sorrir. Eu adoraria sorrir mais.

O figurino também mudou.

É que aquilo era linha show, domingo, a maior parte das pessoas de folga, menos a gente (risos), à noite, programa de variedades, a gente chama uma série de coisas glamourosas, dava para botar um vestido como se eu fosse sair para jantar.

Você chegou hoje de cabelos presos. É sempre assim?

É que está molhado e tem um parêntese: acabei de cortar. Sofri um pouco para cortar, não posso dizer que não sofri.

O que o seu filho achou da mudança de expediente?

A primeira coisa que ele lembrou foi do fim de semana, quando eu sempre estava trabalhando. Mas também lembrou das nossas aulas de tênis que a gente fazia durante a semana e que agora serão no fim de semana. É um momento nosso de alunos, colegas.

Você tem o hábito de apertar as mãos dos entrevistados ou tocá-los. Isso gera uma cumplicidade com a audiência, não?

Nada disso é pensado, nada é programado, eu gosto muito de entrevistar pessoas, para mim é um bate-papo. O (Reynaldo) Gianecchini até falou que chegou uma hora em que a gente nem percebeu que a câmera estava ligada. Com a Ana Carolina Oliveira (mãe de Isabela Nardoni, morta ao ser jogada da janela), era uma mãe conversando com outra. Foi duro, aquilo. É humano, não tem como estar na frente de uma mãe que perdeu uma filha e saber que vai voltar para a sua casa e continuar recebendo o amor do seu filho, e ver alguém que não vai ter aquilo. Não tem como não sofrer junto. Fiquei falando com ela uns 40 dias, pelo telefone, antes da entrevista, até que ela tivesse coragem de falar. E saí dessa entrevista às 2 h da manhã. Quando cheguei em casa, fui tomar banho e chorei. A única coisa que eu controlo na hora é o choro, não posso me emocionar, mas dar a mão é humano. E não é pensado, é de coração.

O Amauri Soares foi editor-chefe do JN. Ele foi de alguma forma um consultor para você?

Isso foi há muito tempo (anos 90). Acho que ele entrou mais como marido mesmo, ele me conhece muito, sabe quando estou preocupada, sabe que eu me cobro muito, não precisa ninguém mais me cobrar. Quando contei, ele falou: "Patrícia, esse convite representa um reconhecimento do seu trabalho, poxa, comemora hoje. Dê o direito de fazer isso a você". Porque ele sabia que eu já estava preocupada com o que faria, com o que os meus chefes esperam de mim. Eu gosto de ouvir o Amauri.

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