Patrícia Mesquita recria artificialismo pop

Patrícia Maria Mesquita diz que deixou a pintura por não saber desenhar. Depois de mais de dez anos, abandonou os pincéis, sentou na frente do computador para descobrir tudo o que podia sobre plotagem (processo de reprodução de imagens). Mas continuou trabalhando com camadas de cores, sobreposição de texturas e jogos de enquadramento, aspectos que privilegiava na pintura.No lugar da tinta, ela agora opera com informações como recortes de revistas de moda, propagandas, fotos de logomarcas e todo tipo de reprodução impressa que configura um universo marcado pelo artificialismo da pop art. Esse novo exercício abriu um universo de possibilidades que poderá ser visto a partir de amanhã (02), no Restaurante Di Bistrô, na primeira individual da artista plástica. Dia 16, Patrícia leva trabalhos da mesma série para o Espaço Ideal, um cyber café na Rua Arthur de Azevedo, em Pinheiros.Todas as criações em plotagem (são cerca de 30, quase todas finalizadas este ano) serão expostas em telas, de médio e grande formatos. "Lembro-me de quando comecei a pintar, tinha o hábito de trabalhar com suportes pequenos", conta Patrícia. "Terezinha Barachini, minha professora na época, dizia que eu estava gritando em um espacinho pequeno", recorda ela, que também foi aluna de Osmar Pinheiro.Os gritos de Patrícia - suas cores fortes e linhas expansivas - não apresentam uma leitura fácil. E, segundo ela, a intenção é exatamente essa. Seus trabalhos pedem que o espectador atenha-se por um certo tempo em frente a tela e participe do jogo de decodificação, uma das chaves de sua obra. "Meu interesse é criar imagens que façam pensar", esclarece.Bem-humoradas, as telas plotadas são quebra-cabeças formados por um corolário de sinais aparentemente desconexos como libélulas, mulheres e frases publicitárias em inglês. Mas em vez de peças pequenas compondo uma grande cena, o jogo é feito de imagens do mesmo tamanho sobrepostas umas às outras, como camadas transparentes de tinta aquarelada. Assim, duas, três ou quatro imagens se confundem, dando origem a uma quinta.Pré-fabricado - Patrícia reforça esse aspecto pré-fabricado do trabalho. Ela trata a mixagem de cenas emprestadas como um artifício gráfico de faz- de- conta e torna isso evidente ao espectador. Esse é um dos sentidos mais fortes do conjunto de quadros. As mulheres, refeitas pela artista, tornam-se mulheres de brinquedo, bonecas sensuais que se desfazem em cores tão naturais como o rosa choque e o amarelo limão.Assim como Mariko Mori, uma de suas referências contemporâneas, Patrícia reinventou sonhos de infância em delírios da era do photoshop. Também da mesma maneira que a artista japonesa, ela ironiza o papel do objeto artístico, como algo fabricado para deslumbrar, encantar ou entreter. "Gosto de pensar num quadro como penso em um livro", comenta. "Gosto da obra de arte como coisa que tem de ser desvendada e entendida."A repetição é outro elemento presente em quase todos os trabalhos. Principalmente as figuras humanas são reproduzidas três vezes nas telas, na maneira de estampas de grafites de rua. Em algumas delas, a artista utilizou a própria imagem. Mas a manipulação sistemática faz com que os vultos humanos (assim como quase todos os elementos) tornem-se praticamente irreconhecíveis. Também como Mariko, a artista transpõe-se para dentro do universo eletrônico profetizado por Barbarela.Metamorfose - Outro caminho da metamorfose, além da sobreposição e da mixagem de reproduções, é a ampliação dos objetos até os limites da definição. Desse recurso surge uma referência eletrônica ao impressionismo, com suas imagens nebulosas e indefinidas, que pedem um certo afastamento do olhar para serem adivinhadas. "É interessante como as pessoas têm lido de maneiras diferentes cada tela", conta. "Há que perceba em um primeiro olhar os corpos retratados; e há quem veja elementos que eu mesma não enxergara."Mas os quadros que serão exibidos no restaurante e no café apenas sinalizam o início de uma pesquisa maior. Patrícia foi buscar no manancial da religiosidade e da cultura popular informações que dão continuidade à sua iconografia de plotagem. Menos cifradas e misturadas, as imagens de santos ganham um corpo diferente: as caixas de luz, que funcionam como espécies de oratórios eletrônicos. "Quero desenvolver mais essas obras antes de montar uma exposição", explica ela, que também aguarda o surgimento de um espaço mais apropriado para expor objetos.Santinhos de festa - As fotografias de santos vêm de imagens de santinhos, dessas distribuídas em festas religiosas, que Patrícia coleciona. "As pessoas vivem me dando essas imagens", conta ela. Esses trabalhos, ainda inconclusos, marcam a mudança de atuação da artista. É como se as telas não suportassem mais os gritos a que sua primeira professora se referia. Assim, as operações de plotagem ganham volume nas caixas, nos oratórios pop. "Esse tipo de trabalho não daria para expor no restaurante", justifica ela, que exibirá também um vídeo de duas horas no local.Patrícia Mesquita. De segunda a sábado, das 20 às 2 horas; domingo, das 13 à 1 hora. Di Bistrô. Rua Jacuri, 27, tel. 3849-5020. Até 6/11. Abertura amanhã, às 20 horas

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