Patrícia Melo lança "Inferno"

As primeiras linhas de Inferno, o mais novo romance de Patrícia Melo, cospem fogo como uma rajada de metralhadora: "Sol, piolhos, trambiques, gente boa, trapos, moscas, televisão, agiotas, sol, plástico, tempestades, diversos tipos de trastes, funk, sol, lixo e escroques infestam o local", escreve a autora que participa da noite de autógrafos hoje, a partir das 19h, na Fnac.As balas, ou melhor, as palavras, continuam cravejando as 376 páginas do mais extenso romance já escrito pela escritora paulista e o primeiro publicado desde sua mudança para o Rio há um ano. A história transcorre nos morros cariocas, com seu cotidiano de violência e miséria protagonizado por uma galeria de tipos formada por traficantes, domésticas, donas de casa e socialites que gravita em torno de José Luís Reis, o Reizinho, líder do tráfico local. Clichês urbanos Além do tamanho, o quarto livro de Patrícia desloca pela primeira vez em seu texto o foco narrativo da primeira para a terceira pessoa. Mudança explicada em razão da multiplicidade dos personagens. "Teria sido muito difícil contar o drama de todos eles a partir do ponto de vista de um único personagem. A narrativa onisciente me deu mais liberdade. Eu podia passar de um núcleo para outro sem problemas", diz ela. Inferno começou a ser escrito antes da autora se mudar para o Rio e depois de uma viagem a Nova York, onde uma exposição do artista plástico Duane Heston, no museu Whitney, a deixou impressionada. "As peças deles são uma síntese da cultura americana. Eu queria fazer o mesmo com os personagens do livro. Queria que eles fossem a síntese da cultura urbana brasileira". Talvez por isso Patrícia não se inibiu em abusar dos clichês. Além de Reizinho, menino olheiro que se transforma em narcotraficante, desfilam pela obra a mãe, Alzira, uma doméstica explorada e humilhada pela patroa, a irmã Carolaine, três vezes grávida na adolescência, soldados do tráfico e funkeiros. "Queria algo que fosse efetivamente brasileiro e, ao mesmo tempo, que pudesse ser reconhecido em qualquer grande cidade". A violência tem sido sua matéria-prima preferida desde a estréia com Acqua Toffana, em 1994, seguido por O Matador (1995) e Elogio da Mentira (1998). Nas três obras, ela trabalhou o tema descrevendo a patologia das mentes de criminosos. Inferno é mais ambicioso porque procura funcionar como uma saga da criminalidade na metrópole. Dois anos de trabalho foram consumidos na realização da obra. Segundo a autora, a motivação para realizá-la se divide. Ela sentiu necessidade de mexer em questões sociais depois de escrever a comédia Duas Mulheres e Um Cadáver, em cartaz no Rio de Janeiro com Debora Bloch e Fernanda Torres. Queria, além disso, explorar um território desconhecido, o universo das favelas e do tráfico. O primeiro passo foi a pesquisa por meio de reportagens e livros. Quando 20 capítulos já estavam escritos, o marido da escritora, Hugo Barreto, foi convidado para trabalhar na Fundação Padre Anchieta, no Rio de Janeiro. Ela e a filha Luisa, 10 anos, foram junto. A segunda etapa incluiu a mudança e a conclusão da obra: "Foi bom que essa transferência só ocorresse quando eu já estava finalizando o livro. Se, por um lado, estar vivendo em São Paulo criava uma série de dificuldades de pesquisa, por outro, fazia com que eu olhasse a cidade de uma maneira mais alerta, sem os vícios do carioca." O processo de elaboração de Inferno revela a profissionalização da escritora. Acqua Toffana, escrito há seis anos, veio num jorro, um livro "feito de maneira mais impetuosa, mais irresponsável". Matador e Elogio da Mentira obedeceram a um planejamento mais rigoroso com o texto sendo submetido a várias revisões. "Não acredito em inspiração. Há dias em que você está menos deprimida, e isso é tudo. Acordar com mais disposição para trabalho já é uma grande coisa", conta ela. Disciplina tornou-se item obrigatório do seu dia-a-dia. Além de romances, ela é roteirista, estreou este ano como dramaturga e agora ainda encontrou tempo para estudar. Está cursando filosofia na PUC-RJ. Entre um livro e outro, ela gosta de se dedicar à atividade com a qual começou sua carreira nas letras, escrever roteiros. Quase todos são adaptações de obras literárias. Patrícia transpôs recentemente três livros para as telas. Cachorro, curta inspirado na obra de Nelson Rodrigues e parte do longa Traição, da Conspiração Filmes; Xangô de Baker Street, de Jô Soares, dirigido por Miguel Faria Júnior com estréia prevista para o início do próximo ano; e Buffo & Spallanzani, baseado na obra de Rubem Fonseca e dirigido por Flávio Tambellini, cuja primeira exibição ocorrerá em outubro, durante o Festival Rio BR 2000. Com Fonseca, influência confessa da autora, houve troca de figurinhas. O autor de Agosto adaptou O Matador da pupila para o filho, José Henrique Fonseca, dirigir. As filmagens devem começar no início do ano que vem. Ainda sobra tempo para algumas leituras. Além dos livros do curso de filosofia, ela acabou de ler O Doente Molière, de Rubem Fonseca, e agora está no meio de Casei com um Comunista, de Philiph Roth. Inferno, de Patrícia Melo, Companhia das Letras, 376 págs, R$ 29. Lançamento às 19h na Fnac (R. Pedroso de Morais, 858, tel.: 3097-0022)

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