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Patologias

Um modo para enfrentar a patologia é ver o diferente como inferior ou superior, tachando a diversidade do outro como primitivismo e atraso em vez de vê-la como uma alternativa

Roberto DaMatta, O Estado de S.Paulo

03 de novembro de 2021 | 03h00

Alguém disse que o homem é um animal doente. Qual é a sua patologia? Sem dúvida é o sofrimento da diferença – aquela enfermidade causada pela consciência de que nem todo mundo é como nós. A liberdade absoluta que não nos prende a ambientes, climas, comidas, roupas, instintos, cio – ou até mesmo a vida –, mas a crenças e desejos, perturba. 

Um modo para enfrentar a patologia é ver o diferente como inferior ou superior, tachando a diversidade do outro como primitivismo e atraso em vez de vê-la como uma alternativa. 

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Em agosto de 1961, com meus 25 anos, cheguei com três colegas a uma minúscula Marabá e ficamos no sertão daquela região por quatro meses. 

Qual era o nosso propósito? Ouro, diamantes, castanhais? Não. Para susto dos grileiros especializados nas terras dos nativos onde pululavam castanhais, ali estávamos – que absurdo, ouvimos na chegada e na despedida – para estudar os “índios”. 

Hoje, com 85 primaveras, percebo bem as patologias nascidas de pontos de vista opostos. Os “cabocos” – como os índios eram chamados – não mereciam nenhum estudo, mas expulsão ou extinção. Eram traiçoeiros, preguiçosos, feios e inferiores. 

E nós, jovens idealistas, éramos justamente o oposto do que ninguém queria naquela região marginal ao Brasil das capitais do “sul”, no qual Brasília brilhava como uma coroa.

Parte da decepção patológica (que eu voltei a experimentar quando estudei os apinayé do Tocantins) era clara: nós deveríamos era estudá-los e não os índios, que viviam com mais independência do que eles. Os indígenas não eram pobres ou desvalidos como eles: eram uma outra coisa... 

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Mas a doença das diferenças surgiu mais claramente quando me hospedei sem convite em um grupo minúsculo de nativos. Ali, experimentei a selvagem da Babel de não compreender e ser compreendido porque não falávamos as línguas um do outro. Falar a língua dos conquistados é básico na conquista. 

Se não há comunicação e a disparidade tecnológica e populacional é imensa, como era o caso, eu apenas entendia o sofrimento. Das minhas mil e tantas páginas dos meus diários, a palavra que mais aparece é “morte” com seus terríveis derivados: morreu ou vai morrer.

Meu ilustre colega Eduardo Viveiros de Castro tem razão. Se você quiser entender de “fim de mundo”, abandone sua Netflix e leia sobre os nativos brasileiros. Eles entendem muito bem do assunto...

*Roberto DaMatta é antropólogo social e escritor, autor de Fila e Democracia

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