Paternidade, amor e democracia

Enquanto assistia a trechos esparsos da convenção republicana na cidade de Tampa, Flórida, eu pensava não em política, mas na necessidade patológica de ser amado.

Lee Siegel, O Estado de S.Paulo

02 de setembro de 2012 | 03h12

Atores profissionais e políticos profissionais são as duas únicas criaturas que conheço cujo sucesso depende de um anseio maníaco por uma adoração e afeto absolutos. Qualquer outro seria atrapalhado por essa carência. Executivos de empresas se descontrolariam e soluçariam diante das faces impassíveis da diretoria. Artistas plásticos e escritores jamais conseguiriam ficar sozinhos. Controladores de tráfego aéreo se espojariam no chão da torre de controle por pura depressão, enquanto aviões fariam círculos frenéticos no ar e pilotos cantassem e fizessem piadas na cabine para conquistar o amor dos passageiros. Mas sem uma corrente contínua de adoração, atores e políticos não conseguem funcionar.

Essa necessidade quase lunática de ser amado causa o efeito mais positivo no ator. Ele (ou ela) é levado a habitar completamente uma vida estranha após outra para conquistar o amor dos espectadores. Ela pode ter o efeito mais debilitante e destrutivo num político. Ele (ou ela) é levado a adotar uma posição após outra para conquistar o amor dos eleitores. Pode-se até dizer que todo aquele que quiser concorrer à Presidência devia ser desqualificado precisamente por esse seu desejo de fazê-lo.

Existem belas exceções de políticos carentes de amor e servis, é claro, pessoas cuja autoestima deriva de sua imagem de si mesmas como virtuosas, éticas e corajosas. Franklyn Delano Roosevelt foi uma delas. Lyndon Baines Johnson foi outra. São políticos aos quais a democracia confere o maior potencial - até porque, sem eles, a própria democracia torna-se mais inatingível.

Mas tudo indica que figuras como essas estão em falta. Se existe hoje nos Estados Unidos uma falta de interesse quase total por uma eleição presidencial, que oferece a escolha mais absoluta em pelo menos uma geração, é porque há um sentimento geral de que os atores políticos não são agentes independentes, mas marionetes. Eles parecem ser manipulados por forças impessoais, como ideologia, estado da economia, demografia em transformação do país. Entre essas forças impessoais, porém, uma é mais potente que todas as outras. Trata-se da relação entre pais e filhos.

Nada determina tanto a intensidade da necessidade de ser amado num garoto do que o relacionamento com seu pai. Nenhuma quantidade de amor da mãe parece compensar a falta da afeição paterna. A política americana moderna está cheia de homens mutilados por seus pais. Seus pais ou são fracos e presentes, ou poderosos e ausentes.

O pai de Ronald Reagan era um beberrão inveterado que o jovem rapaz às vezes tinha de arrancar de bares e arrastar para casa. Clinton perdeu seu pai verdadeiro num acidente de automóvel quando tinha 3 anos e foi criado por um padrasto grosso. O atual candidato à vice-presidência na chapa republicana, Paul Ryan, encontrou o pai morto de um ataque cardíaco quando tinha 16 anos. O pai de Obama era um beberrão que abandonou a família quando Barack era menino. Numa resposta defensiva a seus pais fracos ou ausentes, Reagan e Ryan construíram um ideal fantástico de absoluta autonomia individual; Clinton combinou tibieza ideológica com uma necessidade fatal de seduzir. Obama parece combinar tibieza política com uma necessidade moralmente estarrecedora de provar sua firmeza com implacáveis ataques de aviões não tripulados (drones) no Paquistão. Os quatro sofrem de um desejo de agradar que beira a obsequiosidade.

Presidentes cujos pais deram duro, mas fracassaram, parecem desenvolver caracteres mais fortes. O pai de Lyndon Johnson era uma figura afetiva e solidária que fracassou como fazendeiro e especulador em gado. O pai de Harry Truman era um homem duro, ranzinza, ardorosamente dedicado ao filho, que perdeu uma fazenda e depois não conseguiu fazer uma segunda funcionar. Superficialmente, o pai de Franklyn D. Roosevelt - a meu ver, o maior presidente dos Estados Unidos - era um verdadeiro aristocrata, que mantinha um certo distanciamento do filho, mas tinha-lhe afeição. Foi o aparecimento da pólio que humanizou FDR e o confrontou com a luta com as adversidades que Truman e Johnson experimentaram com os fracassos de seus pais.

George W. Bush - a meu ver o pior presidente do país - teve um pai que havia sido diretor da CIA, vice-presidente e presidente. Em outras palavras, teve um pai que foi implacavelmente ausente da vida do filho. O produto dessa ausência foi um filho deformado de mente e espírito que entregou a Presidência a seu vice-presidente e passou oito anos brincando de guerra como uma criança imatura.

Nesse contexto edipiano, Romney apresenta um paradoxo. Seu pai, George Romney, foi governador estadual e oficial de gabinete, além de candidato presidencial derrotado e empresário fracassado - sem deixar de ser rico. O pai foi poderoso, ausente, fraco e presente. Talvez seja por isso que Romney adota uma posição contraditória após outra, mas é inflexível em cada posição que adota. Se ao menos seu pai tivesse fracassado sem grande sucesso. Aí o filho poderia ter desenvolvido o lado forte de seu caráter.

A despeito de todas as diferenças no relacionamento entre pai e filho, cada um desses homens possuiu ou possui a necessidade patológica de ser amado (com a exceção de George W. Bush, que parece estúpido demais para saber o que é amor). Os homens que foram os melhores presidentes acrescentaram outra qualidade a essa. Eles fatalmente amavam seus pais fragilizados, mas dignos. Como diz o padre Zosima em Os Irmãos Karamazov, de Dostoievski, "O que é o inferno? Eu digo que é o sofrimento de ser incapaz de amar". Se a necessidade quase enlouquecedora de ser amado do político democrático moderno vier acompanhada pela necessidade quixotesca de amar, mesmo que no abstrato, o elemento humano na vida, a democracia estará salva.

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