Patativa do Assaré, emoção e aplausos de pé no Cine Ceará

Documentário é o primeiro que emociona público do evento de maneira duradoura

Agencia Estado

07 Junho 2012 | 03h38

Houve emoção, genuína e duradoura, pela primeira vez no 17.º Cine Ceará com a exibição do documentário Patativa do Assaré - Ave, Poesia, de Rosemberg Cariry. O filme, acompanhado por um Cine São Luís lotado, foi várias vezes aplaudido em cena aberta, em especial quando surgiam as imagens do velho Patativa, declamando seus poemas (de fundo social, muitos deles). Ao fim, o público aplaudiu de pé. Rosemberg trabalha com uma multiplicidade de registros e suportes (do 16 mm ao 35 mm, passando pelo vídeo) nos quais se registram várias etapas da trajetória do poeta e cantador sertanejo. Outras vezes, as palavras de Patativa são cobertas por cenas da história política recente do Brasil - da ditadura militar à redemocratização, com a passagem de Collor, seguido de Itamar e FHC. Também se utiliza, com inspiração, material cinematográfico de filmes como Aruanda, de Linduarte Noronha, País de São Saruê, de Vladimir Carvalho, Viramundo, de Geraldo Sarno, entre outros. O filme começa com cenas do enterro de Antonio Gonçalves da Silva, que depois passou a se chamar Patativa do Assaré. Viveu de 1909 a 2002. O recurso das imagens de velório lembra o procedimento de Glauber em Di Cavalcanti, o até hoje censurado documentário sobre o pintor. Por sorte, esse caminho é logo abandonado. As imagens concentram-se então em Patativa, em pleno ato poético, em cenas políticas brasileiras, ou excertos de filmes que ilustram a miséria a que se referem os versos. Essas escolhas ressaltam uma leitura de esquerda da trajetória do personagem. É uma opção do realizador e não falseia a história de Patativa, que declara ter lido Marx e Lenin, fez versos em prol da reforma agrária e participou do movimento pela anistia, sendo homenageado pela SBPC no movimentado ano de 79. Outros pontos são mais discutíveis como a presença de especialistas depondo sobre a obra de um poeta que, na verdade, fala por si mesma. Nada disso, porém, esconde a emoção ou tira interesse do filme amparado na força de um personagem excepcional.

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