Pat Metheny entre bop, fusion e excentricidades

Guitarrista dá largada a festival com o show que vai repetir amanhã, ao ar livre, no Parque do Ibirapuera

ROBERTO NASCIMENTO , O Estado de S.Paulo

08 de junho de 2013 | 02h08

Pat Metheny abriu o BMW Jazz Festival na noite de quinta-feira com um set eclético, marcado pelo talento de seus homens de apoio e pela mistura virtuosística de fusion e pós-bop com excentricidades instrumentais. Ao seu lado, estava a Unity Band, que tem Chris Potter nos sopros, Antônio Sanchez na batera e Ben Williams no baixo - nada menos que um time de craques. Às 21h30, Metheny surgiu sobre o palco do HSBC Arena à sombra de sua notável cabeleira, um tufo despenteado com ar de cientista maluco, que forma uma magnífica silhueta púrpura assim que as luzes de fundo o deixam na penumbra. Seu primeiro solo foi um improviso meditativo, tocado a sós em sua guitarra Pikasso. Trata-se de um instrumento de três braços, com mais cordas que um tear manual, e aço acoplado em uma variedade de diagonais, fazendo jus aos violões mutantes imaginados pelo pintor cubista.

As tônicas suspensas de Pat hipnotizam e ganham pontuações de arpejos translúcidos como os de uma harpa. Dono de um virtuosismo quase vil, de teor sobrenatural, o trio Potter-Sanchez-Williams então se junta ao guitarrista. Mergulham em Roof Dogs, um tema cujo DNA fusion, de blues rock é extrapolado pela banda ao ponto de tornar-se uma estridente hipérbole. Tocam insistindo na catarse das blue notes - as notas culminantes de um solo de rock - em uma desconstrução livre do clichê roqueiro, enquanto a guitarra de Pat juntada ao sax de Chris passam a soar como uma cuíca amplificada, gemendo em seu registro mais agudo, às provocações de um pano úmido.

Em seguida, Metheny saca um violão de nylon, e embarca em um tema de harmonias trabalhadas que remete à escola brasileira de Jobim e discípulos. Sucede jazz de alto nível, por um grupo de respeitável comando técnico.

Este é o show que Metheny mostrará no gramado do Ibirapuera, neste domingo. Não há nada de novo ou espetacular, mas a sintonia profissional é admirável. Quando um improviso começa a perder o foco, apresenta-se um novo solista, ou voltam-se aos temas por meio de uma comunicação quase telepática. O sax de Chris Potter é uma força da natureza. Embora opere em um nível técnico talvez muito imaculado para canalizar o DNA africano - o suingue - dos grandes saxofonistas, o músico esbanja exemplos sofisticados de velocidade e dialogo jazzísticos. Quando se aventura em Solar, de Miles Davis, um dos dois standards (a outra foi Insensatez) da noite, o entrosamento de Potter e Metheny, ambos improvisando ao mesmo tempo, leva o fã de jazz ao delírio.

E, no momento em que o show parece caminhar para uma noite previsível, Metheny revela sua arma secreta: o projeto Orchestrion, uma orquestra de um homem, em que a guitarra do músico coordena três sessões de instrumentos - uma sanfona, um armário de copos de vidro e um apanhado de percussão. Metheny, agora em frente ao que parece ser o set de o Mundo de Beakman, toca ritmos e melodias como se fossem código Morse. A apresentação vira o samba do crioulo doido. Sanchez ameaça um maracatu, e o grupo embarca em dissonâncias que lembram uma banda de circo embriagada. Além de evocar texturas interessantes enquanto a banda toca para valer, a função do Orchestrion é tão arcaica quanto as geringonças que o compõem.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.