Pasternak ganhou o Nobel graças à CIA, diz historiador

A Agência Central de Inteligência (CIA) dos Estados Unidos pagou de seu próprio orçamento a primeira edição em russo do lendário romance Doutor Jivago, o que permitiu que seu autor, Boris Pasternak, fosse premiado com o Nobel de Literatura em 1958. Poucos dias depois ele renunciou ao prêmio, após ter sido ameaçado de deportação. "Pasternak nunca teria recebido o Nobel se não fosse a CIA, que também lhe salvou a vida", assegurou à EFE o historiador e jornalista russo Iván Tolstói, autor de um livro cujo título poderia ser traduzido literalmente como O Romance Atirado ao Alvo. Neste livro, fruto de "16 anos de investigação", Tosltói tenta lançar luzes sobre este polêmico episódio com ajuda de uma carta de um agente secreto norte-americano que relata detalhadamente as peripécias da CIA para editar o romance em plena Guerra Fria. Indicação de Camus Quando o escritor argelino residente na França Albert Camus (1913-1960), ganhador do Nobel de 1957, propôs o nome de Pasternak para o Nobel, o romance Doutor Jivago estava à espera de ser editado desde 1955 e ainda não havia sido publicado em russo, condição indispensável para a concessão do prêmio. Camus era um admirador de Pasternak. A principal editora russa pretendia publicar o livro, mas a revolução popular na Hungria, em 1956, mudou seus planos devido às mudanças políticas que ocorreram dentro do regime soviético encabeçado por Nikita Khrushchov. Assim, a CIA decidiu solucionar o problema: "Roubaram o manuscrito de um avião que havia aterrissado em Malta, o fotografaram e editaram o livro de forma clandestina na editora Mutón de La Haya", afirma o historiador. "Para evitar suspeitas, utilizaram o mesmo papel de imprensa que era usado na União Soviética e imprimiram o texto em diferentes lugares", conta Tolstoi. Edição italiana A famosa editora italiana Feltrinelli, a primeira que editou o romance em 1957, "deu carta de legalidade ao livro ao estampar seu selo no texto final, após o que o livro foi apresentado a tempo de ser apreciado pelo comitê do Nobel". Após a publicação do romance no Ocidente em 1957, "Pasternak recebeu sérias advertências por parte das autoridades soviéticas". "Se não tivesse sido premiado com o Nobel, Pasternak teria sido detido e enviado a um gulag na Sibéria (os gulags eram campos de trabalhos forçados para criminosos e presos políticos que existiram de 1918 até 1956). O prêmio o salvou da morte", afirma. Tolstói considera que a União Soviética "nunca teria publicado o livro, já que este falava da Revolução Bolchevique de 1917, do bem e do mal. Este é ainda hoje um tema tabu que divide a sociedade russa entre brancos e vermelhos". Símbolo cultural Para o Ocidente, Pasternak "era um símbolo, um instrumento para cutucar a União Soviética. Enquanto a KGB (agência de espionagem soviética) utilizava veneno para eliminar elementos indesejáveis, a CIA recorreu a algo mais efetivo, a cultura". "Era o último dos grandes escritores russos vivos. Os outros ou haviam morrido de velhice, como Mijail Bulgákov, ou haviam sido fuzilados ou enviados para a Sibéria", acrescenta. Doutor Jivago narra as transformações porque passa um médico e sua família durante os últimos anos da Rússia czarista, a guerra civil, a revolução bolchevique e o nascimento da União Socialista Soviética (URSS). Além do fundo político, a obra relata o dilema romântico de Jivago, um burguês intelectual que inicialmente apóia a revolução Russa, mas depois se decepciona com o socialismo e também se divide entre dois amores, o de sua esposa e o da bela e desventurada Lara. Paradoxalmente, Pasternak, que é mais conhecido na Rússia como poeta e romancista, nunca recebeu o Nobel, já que foi obrigado a recusá-lo publicamente quatro dias após o anúncio, sob ameaça de deportação. Intelectuais soviéticos O escritor, considerado um dos maiores poetas russos do século 20, morreu aos 70 anos, em 1960, em meio a uma duríssima campanha de desprestígio movida por parte dos intelectuais soviéticos. Em um dos aspectos mais polêmicos do seu livro, Tolstói garante que Pasternak "tinha enviado o manuscrito a seus amigos no Ocidente, mas não sabia nada sobre a intervenção da CIA". Mas, quando soube de sua publicação em russo e de sua candidatura ao prêmio Nobel, "ficou muito contente". O filho de Pasternak, Yevgueni - que recebeu o prêmio em nome de seu pai em 1989, não compartilha muitas das teorias do livro de Tolstói. "Meu pai nunca esperou receber o Nobel. Só lhe trouxe sofrimentos", assegura, reagindo ao ver o nome de seu pai relacionado com a CIA. O romance foi editado pela primeira vez na Rússia pela revista cultural Mir, em 1998, sete anos depois da queda da União Soviética, em 1991. Sucesso no cinema Adaptado por Robert Bolt e levado ao cinema pelo diretor britânico David Lean, em 1965, com Omar Shariff como Doutor Jivago, Julie Christie como Lara e Geraldine Chaplin como Tonya, o filme conquistou cinco troféus no Oscar: Melhor Roteiro Adaptado, Direção de Arte, Trilha Sonora Original e Figurino. Em sua trilha sonora, o Tema de Lara (Lara´s Theme), composto por Maurice Jarre, virou um clássico do gênero. Tolstói, que trabalha como correspondente para a Rádio Libertad em Praga, espera publicar o livro em russo, inglês e espanhol "se for possível", no verão, na comemoração do aniversário de 50 anos da primeira edição do romance imortal.

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