Passos largos

Rumer poderia lançar uma biografia antes mesmo de ser cantora. História ela tem

Emanuel Bomfim, O Estado de S.Paulo

19 de fevereiro de 2011 | 00h00

Autoconfiança já não é mais um problema para Rumer. Basta ver quem está na sua cola: Elton John, Burt Bacharach e a diva folk Carly Simon. Mas por muito tempo não foi assim. A cantora de 31 anos batalhou por ao menos dez até sua música sair do círculo indie e se tornar sensação na Inglaterra - fato que veio coroar seu ótimo disco de estreia, Seasons of My Soul, lançado em novembro do ano passado no Reino Unido e que chega às lojas do Brasil em maio.

Se ainda não tem músicas reconhecidas por aqui, Rumer tem história. Ela enfrentou barras pesadas em casa, como a notícia de que seu pai não era o mesmo que o de seus seis irmãos mais velhos. Nascida Sarah Joyce, foi fruto de um affair de sua mãe com o cozinheiro paquistanês da família, quando ainda moravam em Islamabad.

A inevitável separação dos pais foi um baque para toda a família, mas atingiu principalmente a caçula Sarah, que mal havia se acostumado com a mudança para New Forest e o modo de vida britânico. A infância no Paquistão, sem TV, fez com que ela e seus irmãos criassem as próprias brincadeiras. E aí é que entra o violão. "Eu cresci com a música", disse em entrevista.

Um pouco mais tarde, quando a admiração por Judy Garland já fazia fluir as primeiras canções, ela perde a mãe, acometida por um câncer. A dor lhe rendeu, além de maturidade, um nome artístico: Rumer. Antes de morrer, a mãe deixou uma lista de recomendações literárias, que trazia o nome da prestigiada autora britânica Rumer Godden. "Eu me lembro de ter gostado da sensação", contou à BBC. "É glamouroso e romântico."

Ainda na universidade, montou com os amigos uma banda de folk chamada La Honda. Depois, em Londres, cantou em bares e pequenos clubes.

Antes de firmar-se, Rumer foi vendedora em loja da Apple, faxineira em lanchonete, garçonete, pipoqueira em sala de cinema, professora e ajudante de cabeleireira. Parte do que recebeu como herança da mãe ela investiu em horas de gravação em estúdios caseiros e semiprofissionais. "Eu tentei de tudo. Folk, country, o que dava... Eu sabia que minha música era boa", contou ao jornal The Guardian.

Sua primeira grande chance foi fruto de um encontro casual com o ator Steve Brown, conhecido pelo personagem Glenn Ponder da série Knowing Me, Knowing You, que bancou a gravação de seu primeiro álbum, editado posteriormente pela Atlantic Records.

Em um mês e meio o disco vendeu mais de 100 mil cópias, e lá foi Rumer cantar no programa de Jools Holland. O telefone, então, não parou mais. Eram convites desde para cantar ao lado de Elton John quanto para fazer um show particular na casa de Burt Bacharach.

Agora não importava mais se a gravadora, a família ou os amigos dissessem que ela era competente. "Se Burt Bacharach diz que você é boa, é hora de começar a acreditar em si mesma", extravasou a artista.

O hitmaker oitentão, que ela diz ser "o maior compositor do século passado", ficou tão fascinado por seu soft-soul que lhe deu uma canção de presente: Some Lovers, incluída no recém-lançado EP Rumer Sings Bacharach at Christmas. Detalhe: Bacharach não soltava um tema inédito havia cinco anos.

O carro-chefe de Seasons of My Soul, descrito por Steve Brown como "uma espécie de Cavalo de Troia emocional", é a envolvente Slow, uma triste balada sobre um amor não correspondido. Ainda mais pungente, surge a confessional Aretha, sobre uma menina solitária que busca consolo na diva do soul Aretha Franklin. A aparente leveza das 11 faixas esconde, na verdade, um rio de lágrimas.

Nesta semana, Rumer iniciou nova turnê pelo Reino Unido com fôlego renovado: recebeu duas indicações para o Brit Awards, nas categorias "melhor artista feminina" e "revelação do ano". A cantora também está indicada entre as melhores estreantes da música no prestigiado prêmio do jornal britânico The Guardian.

A anglo-paquistanesa agora quer lidar com o efeito da "fama instantânea" de maneira produtiva. Mais do que o brilho no ego pelo hype criado nos bastidores, ela assume que o desafio está em emocionar grandes plateias pelo mundo. Se isso depender de persistência, Rumer é uma natural candidata ao posto.

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