Passos guiados pela paranoia de piva

A energia explosiva do poeta é captada em espetáculo da Cia de Diadema, dirigida por Ana Botosso

Helena Katz, O Estado de S.Paulo

05 de agosto de 2011 | 00h00

Com música ao vivo, a Cia de Danças de Diadema estreia hoje, às 21h, no Sesc Vila Mariana, Paranoia, dirigida e concebida por sua diretora, Ana Botosso, e coreografada por ela em parceria com o elenco. Em cena, ao vivo - o que não é frequente em espetáculos de dança - está também o Grupo Experimental de Música (GEM), especializado em instalações sonoras e na confecção de seus instrumentos. Serão três espetáculos, em uma minitemporada que se encerra domingo.

Tudo começou em 2007, quando Ana Botosso leu Paranoia, de Roberto Piva. Em entrevista ao Estado, contou que, à medida que ia lendo, imagens não paravam de aparecer. "Mas somente dois anos depois, recebi dele uma reedição do livro, aquela que tem as fotos dos gaviões, porque ele era gavião no xamanismo. Quando me deu, disse: "Veja o que você faz com isso"." Piva, que morreu em julho do ano passado, conhecia o trabalho da Cia de Danças de Diadema, pois havia visto Crendices? Quem disse? (2007).

"Quando reli, já era com outro olhar, buscando coisas específicas. Depois, o elenco leu e começamos nos reunindo apenas para conversar sobre as sensações que surgiam. Isso durou até dezembro e, de janeiro em diante, começamos as pesquisas de corpo. Fiz um pré-roteiro que mistura as situações do livro com a vida de Piva e passamos a trabalhar cada cena", afirma Ana.

Os dez bailarinos da companhia ensaiam quatro dias da semana e, às quartas, todos trabalham como oficineiros em escolas de Diadema nas atividades socioculturais que caracterizam a natureza dessa companhia. "Somos contratados como bailarinos e oficineiros por uma associação prestadora de serviço para a Prefeitura de Diadema e, até hoje, 16 anos depois de fundada, a companhia ainda não existe legalmente, o que permite, por exemplo, o que aconteceu no ano passado, quando estivemos ameaçados de extinção. Estamos empenhados em mudar essa situação, lutando pela lei que ainda nos falta", explica.

Ela fez audição e começou como bailarina da companhia que viria a dirigir, em 1998. No ano seguinte, Ivonice Satie, a criadora da Cia de Danças de Diadema, a convidou para ser sua assistente de direção e, quando Ivonice se afastou, em 2003, assumiu a sua função. "O elenco participa tão ativamente da criação de Paranoia, que seria injusto não escrever na ficha técnica que a direção e a concepção são minhas, mas a coreografia é nossa."

Interessada na poética de Roberto Piva e nas situações que o livro descreve sobre um andarilho, focou sobretudo nas esquinas, vitrines, sem esquecer a história verídica de um amigo do poeta que se apaixonou por um manequim. "Vi algo forte na poesia dele e fui fazer aula de caratê, para poder transformar em movimento a energia contida e explosiva que percebia no que estava lendo. Gosto de buscar outras informações em termos de movimento, mas digo sempre que é somente como uma sombra, porque vou só até certo ponto na mistura com a minha própria bagagem e com a dos bailarinos."

Quando ainda nem era bailarina da companhia, já a admirava. "Esse era o grupo que sempre me fazia sair de casa para ver o que estava fazendo. Reconhecia algo de diferente nele, de mais humano, que ligava a sua dança com o que acontece na vida. Sempre senti proximidade entre quem dançava e quem assistia, e penso que ainda hoje é isso que nosso público vê no que continuamos a produzir."

Dos 8 integrantes do GEM, quatro estarão no palco: Luciano Sallun, Flávio Cruz, Rodrigo Olivério e Bira Azevedo. Quem acompanha o grupo, vai perceber uma densidade sonora diferente da que habitualmente pratica: "Fomos experimentando até ajustar a trilha ao que Paranoia pedia", acrescenta Ana.

PARANOIA

Sesc Vila Mariana. Rua Pelotas, 141, tel, 5080-3000. Hoje e sáb., às 21 h; dom., às 18 h. R$ 6/R$ 24. Até 7/8.

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