Passos de um boneco centenário

Jornada de Pinóquio chega ao século 21 e alerta jovem sobre suas escolhas

ANTONIO GONÇALVES FILHO, O Estado de S.Paulo

20 de dezembro de 2011 | 03h09

Pinóquio já foi analisado e psicanalisado nestes seus 130 anos de existência, mas, como diz Italo Calvino no posfácio da nova edição do livro de Collodi, é impossível pensar nele como uma figura centenária. Acaba sendo natural, conclui Calvino, que pensemos em Pinóquio como um menino que sempre existiu. E foi pensando na atemporalidade do boneco que a coreógrafa Susana Yamauchi concebeu Pinochianas, o balé com 350 crianças - a mais nova com 8 anos - que ocupa, literalmente, todo o palco do Municipal, hoje e amanhã.

"Sempre pensei em Pinóquio como uma possibilidade de aprendizagem", diz Susana. Ela dividiu o espetáculo em 14 cenas que resumem - mas não reduzem - os 36 capítulos do livro. No aggiornamento da história do pedaço de madeira - transformado num boneco pelo entalhador Gepeto-, ele ganha o conturbado mundo dos jogos eletrônicos e dos celulares com pernas ágeis. A coreógrafa o faz trombar com diversos personagens para tratar a história do mentiroso como representação alegórica das tensões e conflitos vividos pelas crianças e jovens de hoje - incluindo aí uma representação de bullying escolar.

As diversas cenas foram coreografadas de maneira autônoma pelas várias turmas de alunos, que inventaram movimentos próprios para expressar as angústias e sofrimentos de um boneco que foge de casa, vende sua cartilha para entrar num circo, é roubado por um gato e uma raposa, preso e, finalmente, enforcado para ressuscitar graças ao amor de seu pai Gepeto e à intervenção de uma fada madrinha.

"Exposto às adversidades do mundo, Pinóquio é representado por alunos protagonistas que traduzem os sentimentos e estados oníricos do boneco", diz Susana Yamauchi, que evitou um confronto direto com a narrativa literária e a construção de uma história linear. "Não contamos histórias, mas incentivamos os bailarinos à leitura do livro de Collodi para que desenvolvessem as próprias visões da jornada do boneco escapista."

Nessa jornada épica, em que o herói é submetido a testes de força moral, as crianças tiveram até de se imaginar no bucho do Peixe-Cão, onde Pinóquio reencontra o paizinho Gepeto. Como são pequenos bailarinos, eles tiveram de se comportar como uma coletividade de Pinóquios, o que, segundo Susana, está de acordo com a nova orientação pedagógica da Escola de Dança de São Paulo, que dirige há um ano. "Não faz sentido preparar alunos com a ideia de que só alguns poderão ser solistas no futuro", justifica a coreógrafa, cujo passado registra até uma passagem por um musical da Broadway, a primeira montagem brasileira de A Chorus Line, que, por sinal, falava de coadjuvantes.

A grande lição da montagem de Pinochianas, além dessa, é que o mundo se modifica não por meio da magia de fadas, mas por gente comum, como o faxineiro que toma o lugar de Gepeto nessa história e reanima o boneco, transformando-o em gente. "É preciso ser assertivo para que os jovens entendam que as escolhas são feitas por eles", diz Susana, assumindo o imaginário moral de Collodi ao escrever a parábola.

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