PASSOS DA POÉTICA MINEIRA

Cia. Primeiro Ato, de Belo Horizonte, celebra 30 anos com novo espetáculo, em SP

HELENA KATZ, ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

17 de março de 2013 | 02h13

Foi em 1982, em Belo Horizonte, que Suely Machado criou sua companhia de dança, a Primeiro Ato. Desejava, já naquela ocasião, construir um perfil particular, colocando a dança em diálogo com o teatro (daí vem seu nome) e, com o passar do tempo, os contatos se ampliaram para a mímica e a literatura. No aniversário de 30 anos, a festa reúne Guimarães Rosa e Milton Nascimento em uma nova criação. Pó de Nuvens, a ser apresentada hoje, às 18 h, no Sesc Pinheiros, foi encomendada a Denise Namura, brasileira, e Michael Bugdan, alemão, dupla que vive há cerca de 30 anos em Paris.

Em entrevista por Skype ao Estado, Suely diz que o tempo passou rápido, mas que exigiu total comprometimento. "De repente, você constata que viveu uma vida inteira dedicada à dança, na qual foi precisando se reinventar a cada dia para conseguir chegar até aqui, e sempre buscando essa linha tênue do diálogo com outras áreas, que revigoram a dança porque ela fica interferida por essas outras riquezas."

Sueli conta que o processo de trabalho com Denise e Michael foi rico e prazeroso. "Foi um mergulho profundo de dois meses e meio, no qual convivemos 24 horas por dia. Fomos para Tiradentes, Bichinho e Barroso, dormimos em uma fazenda onde comemos comida preparada em fogão de lenha. Nós nos impregnamos do ondulado da topografia mineira, que é muito aérea, parecendo um braço no ar, mas está formado por montanhas fincadas no chão. Descobrimos que a paisagem tem a mesma poética do fuxico e das rendas mineiras. Atentamos para os pássaros, e também para o cotidiano local."

Os diversos sotaques mineiros dos bailarinos encantaram a dupla de criadores. "Eles queriam fazer A Terceira Margem do Rio, do Guimarães, mas propus que explorassem o elenco, que reúne o vigor e a maturidade de bailarinos de 18 a 48 anos, e mistura a inquietação dos que querem tudo e daqueles que são mais seletivos. Aprendo a ter escuta para a diversidade deles e creio que Denise e Michael conseguiram uma sintonia muito especial com todos porque ambos têm uma sensibilidade rara."

A dupla trabalhou com a criatividade do elenco, formado por Alex Dias, Danny Maia, Jonatas Raine, Lucas Resende, Marcela Rosa (também é assistente de direção), Pablo Ramon, Vanessa Liga, Verbena Cartaxo, e a estagiária Cecília Cherem. "Eles se disseram impactados pelo preparo do grupo para a sua linguagem e, para nós, depois de tantos anos criando nossos próprios trabalhos, foi um verdadeiro presente termos quem nos dirigisse em um processo tão rico como o que vivemos juntos. Saímos dele com a certeza de que na próxima vez em que voltarmos ao nosso processo de criação, seremos outros."

Além da companhia de dança, a Primeiro Ato abriga também mais três braços: um centro de formação com 450 alunos; o projeto Dançando na Escola, que atende 200 jovens de 6 a 14 anos em um grupo escolar estadual localizado em uma região marcada por agressão sexual e violência; e o Espaço de Acervo e Criação Compartilhada, dedicado a intercâmbios e residências artísticas, localizado em um galpão no Jardim Canadá, a 14 km de Belo Horizonte. "Dirijo as quatro iniciativas, que são interligadas nos seus aspetos de formação e criação. E no ano que vem vou trabalhar com Alex Dias na pesquisa corporal que ele está desenvolvendo. Foi com ele que criei, em 2004, o espetáculo Mundo Perfumado."

Sueli conta que resistiu em aceitar trazer dois mineiros tão fortes como Guimarães Rosa e Milton Nascimento para a nova produção. "Como sempre priorizei os processos, que, para mim, valem mais do que seus resultados, e sei que é importante saber rir de si mesmo, acabei apostando nesse projeto em torno da mineiridade."

Pó de Nuvens dura 60 minutos, tem concepção e coreografia de Denise Namura e Michael Bugdan, que também assina a iluminação, a trilha sonora e sua pesquisa musical, o cenário, a concepção de vídeo, a dramaturgia e a pesquisa de textos.

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