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Passo o ponto

Ando pelo bairro contabilizando placas de 'Aluga-se' ou 'Passo o Ponto'. A cada portão fechado, uma fagulha de memória se acende

Gilberto Amendola, O Estado de S.Paulo

26 de outubro de 2020 | 03h00

Eu ando pelo bairro contabilizando placas de “Aluga-se” ou “Passo o Ponto”. A cada portão fechado, uma fagulha de memória acende alguma coisa dentro de mim. 

Um bar fechado não é só um bar fechado. 

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Você me ouve?

As cadeiras estão empilhadas sobre um balcão em que eu já me debrucei. Dos quadros na parede, sobraram apenas pregos solitários onde fantasmas ainda se balançam.

O papel no chão mostra tudo o que consumimos (e, eventualmente, aquilo que nos consumiu). Quanto gastamos naquela noite? Quanto gastamos nos iludindo que tudo seria pra sempre – como nossos empregos, amores e projetos de festim. Uma conta no chão, uma conta que ainda não foi varrida. Quem vai pagar por isso? 

O colarinho do chope era perfeito. Dois dedos de colarinho. E tinha um bigode de espuma no meu rosto embasbacado. 

Quantas vezes eu me levantei para ir ao banheiro?

Uma porção de fritas também é poesia. 

Eu paro para ouvir o vazio dos salões. O riso do amigo contando uma vantagem mentirosa, a discussão que o álcool regou por muitas rodadas. A flor áspera das nossas ilusões plantada em uma mesa de perna bamba. 

Agora, quando fecho os olhos, o som que ouço me lembra o de um respirador, são como apitos, alertas de uma UTI, iguais aos do quarto em que meu pai estava internado. 

Um restaurante fechado não é só um restaurante fechado.

Eu ainda te vejo sentada na mesma mesa, demorando para fazer o pedido, invejando meu prato e se arrependendo da escolha que havia acabado de fazer. O vinho era sempre do mais barato. A conta era dividida sem cerimônia.

A gente achava o garçom a melhor pessoa do mundo. E ele era, sem nenhuma dúvida, a melhor pessoa do mundo. Um dia você disse que “garçons eram anjos fazendo estágio na Terra”. A gente riu e deixou uma caixinha generosa.

Não tinha delivery. Mas a gente levava uma quentinha para depois. Era o nosso “restô dontê”. Como era boa a nossa vida quando ainda existia um “restô dontê”. 

Um barbeiro fechado não é só um barbeiro fechado. 

Eu queria mudar um pouco. Passar a máquina. Ficar careca. E acordar no ano que vem.

As placas de “Aluga-se” balançam com o vento. Uma tempestade está se formando. Na banca de jornal, leio que o presidente avisou que não irá comprar a vacina chinesa.

Passo o ponto. Passo o ponto também.

* Esta crônica foi escrita na última quarta-feira, dia 21 de outubro. Horas depois, meu pai nos deixaria (após mais de um mês de internação). Desde que escrevi sobre ele neste espaço, tenho recebido muitos e-mails e mensagens de leitores carinhosos e solidários. Em nome da família, quero dizer que nos sentimos abraçados e confortados por todos vocês. Meu muito obrigado. Estamos juntos. 

 

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