''Passione, a novela em que a história acontece''

Silvio de Abreu, que volta hoje ao horário nobre da Globo, se nega a defender teses em detrimento da boa diversão

Patrícia Villalba, O Estado de S.Paulo

17 de maio de 2010 | 00h00

Thriller. Silvio: “No capítulo cem, ela vira novela policial”    

 

 

Foi subindo a Rodovia Anchieta, vindo do Guarujá para São Paulo, que o autor Silvio de Abreu bolou o argumento de Passione, a nova novela das 9 da Globo que estreia hoje. No rádio, ele ouvia Mala Femmena, canção italiana em que o cômico Totó narra a história de uma mulher ordinária que fez gato e sapato do coração de um bom homem. "Mulher, tu és uma mulher má, a estes olhos fizestes chorar lágrimas de infâmia", diz a letra.

Ali, no carro, lhe pareceu que seria um personagem ideal para o ator Tony Ramos interpretar. "Já tinha dito para ele que a gente faria uma novela na Itália", conta o autor. Assim foi montada a história.

Passada parte na região da Toscana, parte em São Paulo, Passione começa contando a história de como Bete Gouveia (Fernanda Montenegro) descobre que tem um filho perdido, de 55 anos, na Itália. É Totó, personagem de Tony Ramos, que será enganado por uma golpista, Clara (Mariana Ximenes), a partir do momento que se torna um herdeiro em potencial.

É uma história assumidamente folhetinesca, melodramática e também misteriosa, que Silvio começa a contar aqui, nesta entrevista ao Estado, feita em seu apartamento, nos Jardins.

Por que escolheu a Itália como palco para a novela?

Já queria fazer uma novela passada na Itália há muito tempo. Mas não queria fazer uma novela passada em São Paulo com personagens italianos, já tinha feito isso em A Próxima Vítima (1995). Queria fazer na Itália mesmo. E junto com isso, o Tony Ramos é outro apaixonado por cinema italiano. A primeira ideia veio daí: fazer um italiano para o Tony (risos). Com essa ideia na cabeça, fui para o Guarujá. Na volta, no carro, ouvi uma música chamada Mala Femmena, do Totó. Conta a história de uma mulher ordinária por quem o cara se apaixona. Ele é um cara honesto e ela é uma vagabunda. Disse para a minha mulher "isso dá uma novela". A essência veio daí.

E olhe que a subida do Guarujá anda rápida.

É, 1h15 de lá até aqui! Vim pensando também quem a Fernanda (Montenegro) poderia ser. Fui inventando assim. Saiu.

Você praticamente escreveu ao inverso, pensando o personagem a partir do ator?

Sempre faço isso, desde Guerra dos Sexos. A novela não é lida, né? Ela é feita para o público, mas não chega a ele como texto. Então, se eu não tiver o ator certo, não tenho nada. Numa peça de teatro, você pode pegar um ator que não tem nada a ver com o personagem e, num processo de ensaio, ele chega lá. Na televisão você não tem isso. Então, quanto mais o personagem se aproximar do ator, é melhor para a escalação. Acho que a gente que escreve para a televisão tem de saber perceber as limitações e vantagens do veículo.

Mas, dessa forma, não se corre o risco de pôr um ator sempre no mesmo tipo de personagem?

Não. Uma coisa que eu reclamo muito na Globo é o que os americanos chamam de "type casting", que é escalar sempre as mesmas pessoas para fazer o mesmo tipo de coisa. Faço o contrário, porque aí tem surpresa. Ninguém nunca viu a Irene Ravache fazendo comédia, pelo menos não na televisão.

Um elenco tão forte como o de Passione tem potencial de chamar mais público?

Não. O que chama público é uma novela com elenco adequado. Você pode fazer a escalação com um monte de gente importante e a novela não dar certo. O que precisa é ser adequado. Agora, quando você tem o grande talento, no personagem certo, aí é sopa no mel. O que eu tentei fazer foi isso.

Pelo que percebo, ainda mais com esse clima italiano, Passione será um grande melodrama. Não tem mistério desta vez?

Tem. Uma característica interessante da novela é que depois do capítulo cem ela vira uma novela policial. Não porque vai morrer alguém, é que desde o começo você vai assistir pensando que é um melodrama, mas há uma história dentro da história que só vou revelar depois. E revelando essa história, a novela entra num clima de investigação policial.

É um "quem matou" como aquele de A Próxima Vítima?

Vai ter "quem matou?" também. Mas primeiro é "quem é?". O "quem é?" vai resultar no "quem matou". Tudo junto. (risos) Uma coisa que eu não quero fazer nessa novela é aquela história "essa novela é sobre a beleza" ou "essa novela é sobre superação". Nada disso. Essa coisa de tema está me irritando, porque parece que a gente tem de fazer tese cada vez que faz uma novela. E não dá para fazer tese, porque novela tem de ter emoção. E uma tese é muito mais racional do que emocional. Não quero mais essa pretensão, quero fazer um bom entretenimento. É uma novela onde a história acontece.

É mais complicado entrar no lugar de uma novela que teve muita audiência ou no lugar de outra que teve a audiência ruim. Viver a Vida teve audiência abaixo do esperado?

Não tem nada a ver. Não sei quanto deu a novela do Manoel Carlos, mas se estava com baixa audiência, provavelmente a minha não vai estrear tão bem. Mas depois ela terá de conquistar a audiência dela. Se ela tiver os méritos dela, vai conseguir.

Depois de tantas novelas, você ainda se diverte escrevendo?

Muito! E nesta estou me divertindo muito mesmo. É um prazer imenso de fazer, como eu tive em Belíssima. Tive duas novelas que foram complicadas - Torre de Babel (1998) e As Filhas da Mãe (2001). Mas com Belíssima, resgatei o prazer, e com Passione estou aprofundando.

APAIXONANTES

Estrelas

O grande trunfo de Passione é o elenco. Estão lá Tony Ramos, Fernanda Montenegro, Mauro Mendonça, Aracy Balabanian, Elias Gleizer, Cleyde Yáconis, Leonardo Vilar, Rodrigo Lombardi, Vera Holtz e Mariana Ximenes, entre outros.

Trilha

A música da abertura foi encomendada ao cantor Lenine, coisa que andava meio em desuso ultimamente em novelas. Ele compôs Aquilo Que Dá no Coração. A abertura da novela terá ainda arte de Vik Muniz.

Cantor

Uma nova versão de Mala Femmena, canção napolitana que deu a ideia para Silvio de Abreu escrever a novela, também foi encomendada, ao cantor Paolo. A original, interpretada por Totó, você pode ouvir no YouTube (http://migre.me/Ezqo).

Telecurso

Parte da novela se passa na Toscana, mas Silvio de Abreu vai tomar uma "licença poética" para usar músicas napolitanas, além de outras referências romanas. "Claro que vão me criticar. Mas não vou deixar de fazer, porque não quero fazer o "telecurso da Toscana", mas uma novela passada na Itália. A Toscana é como um símbolo."

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