Passeio pelas artes e mídias

Surpreende em Lições e Subversões como Lucia Santaella ultrapassa a especificidade do público universitário, que foi, como ela afirma, o destino principal de sua produção intelectual. Aqui, ela se desloca levemente dos rigores acadêmicos para explorar um estilo de "dicção mais pessoalizada". O resultado é a forma simples como a autora dessa coletânea de ensaios curtos e imaginosos traduz a teoria densa da ciência das linguagens, cotejando-a com a trajetória da arte. Assim, conceitos oriundos da teoria dos signos do norte-americano Charles Sanders Peirce são paulatinamente assimilados por uma narrativa de impacto, desautomatizando a percepção do leitor contemporâneo, que ela define como cognitivo.

Mônica Rodrigues da Costa, O Estado de S.Paulo

10 de abril de 2010 | 00h00

O livro traz 20 textos divididos em seis tópicos: Subversão de Hábitos; Lições do Olhar; Conjecturas sobre a Música; A Onipresença das Redes; Lições dos Sentidos e Feminino & Masculino. Lucia transita com naturalidade pela poesia do norte-americano e.e.cummings, pela fotografia, pelo universo da canção popular - ao mesmo tempo em que revisita ideias de teóricos como o canadense Marshal McLuhan, que revolucionou as comunicações. Tal flexibilidade é fruto da intensa carreira acadêmica da autora que, vinda das Letras, é uma autoridade em semiótica no Brasil e fora do País, dedicando-se atualmente ao estudo das novas tecnologias e à convergência entre arte e mídia. Sobre esses temas publicou mais de 30 livros e organizou 11 outros títulos.

Como em sua obra acadêmica, neste volume Lucia Santaella realiza uma trama transdisciplinar de linguagens e suportes, como a página branca, a película ou a internet, cujo enredo pertence às semióticas aplicadas e aos distintos campos artísticos. A partir de pensadores como Peirce e os franceses Roland Barthes e Gilles Lipovetsky, suas análises sobre imagens e as condensações metafóricas do videoclipe, por exemplo, apontam interações em obras como O Grande Vidro, do também francês Marcel Duchamp, e ALUZ, de Julio Plaza, espanhol que viveu no Brasil - e, ainda, nos comportamentos sociais.

Com discurso metalinguístico, a autora subverte a percepção do leitor para mergulhá-lo nos significantes dos sentidos humanos e conduzi-lo pela evolução das artes, cujo caráter paradoxal, apoiado nas tecnologias de distribuição e comunicação, concede mais significados à cultura - renovando as linguagens e proposições estéticas.

MÔNICA RODRIGUES DA COSTA É DOUTORA EM COMUNICAÇÃO E SEMIÓTICA PELA PUC-SP

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