Passaporte para uma infância sem saudosismo

Novo volume de versos da carioca Bruna Beber cria com o leitor uma empatia doce e suave

HENRIQUE RODRIGUES, ESPECIAL PARA O ESTADO, HENRIQUE RODRIGUES É POETA, AUTOR DE A MUSA DILUÍDA, ENTRE OUTROS, O Estado de S.Paulo

20 de julho de 2013 | 02h20

Bruna Beber nos convida para um passeio no seu novo livro de poemas, Rua da padaria (Record, 2013). Desde a primeira seleta, publicada em 2006 (A fila sem fim dos demônios descontentes), a jovem poeta tem chamado a atenção na cena literária - a princípio carioca, mas hoje já com poemas traduzidos em diversos países.

Mas voltemos à rua da padaria. Hoje, aos 29 anos, a moça nos transporta para a Baixada Fluminense da - já longínqua - década de 1990. O olhar sobre a infância e adolescência não é permeado com a saudade da inocência perdida numa época idealizada. O que Bruna faz é uma previsão para ontem: adivinha, vaticina o seu tempo com diferentes matizes. Em alguns poemas há pitadas de desencanto e ceticismo: "chumbo que respiro / minha saudade / te apodrece". Mas na maior parte do livro existe uma candura pulsante, especialmente quando se trata de referências familiares e cenas comezinhas ambientadas na Baixada: "mamãe posso comer / essa pipoca // não pode minha filha / é macumba / macumba não pode comer. // e o guaraná pode / ah mãe deixa". São esses instantes capturados que explodem da memória do eu-lírico para a memória do leitor, numa empatia doce e suave.

O livro não só é um passaporte para a rua da padaria, mas é também um passaporte bonito. Não se pode deixar de mencionar o belíssimo projeto gráfico, de Patrícia Chmielewski: um embrulho com papel vermelho, típico de padarias e comércios populares, selado com um pedaço de fita durex que traduz a simplicidade e a beleza dos poemas.

Boa parte deles tem versos curtos, bem cadenciados, com uma melodia que casa bem com a proposta geral do livro. A forte carga imagética sugere ainda que esses poemas, apesar de tão intimistas, pedem para ser lidos também em voz alta, alcançando uma dimensão que só o tempero da oralidade confere à poesia: "felicidade é o que tem dentro / das bolinhas de papel // e se arremesso / lá vai ela // pela porta na careca / do inspetor // brinca de pique aposta / corrida numa perna só".

O livro surge quando a poesia ganha novo destaque nas prateleiras, puxado pela comercialmente bem-sucedida obra completa de Paulo Leminski. A escrita concisa, quase epigramática, o texto acessível ao leitor não iniciado, a pegada publicitária, a tendência ao despojamento e o senso lúdico aproximariam os dois autores. Mas a poesia de Bruna não parece ter essa influência direta, trilhando pela rua da padaria com luz própria.

Essa rua da padaria tem o cheiro poético de quem olha para trás com os pés no agora. Tem o cheiro da memória boa, do pão saindo do forno. Antes dos 30 anos, Bruna Beber nos faz lembrar que, na poesia - e, por isso mesmo, na vida -, hoje está sempre amanhecendo.

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