Luke Macgregor/Reuters
Luke Macgregor/Reuters

Passando em revista a sanguinária corte dos tudors

Premiado com o Man Booker Prize, o livro Wolf Hall busca um retrato equilibrado de Thomas Cromwell, o conselheiro de Henrique VIII

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

26 de agosto de 2011 | 00h00

Entrevista

Hilary Mantel

Há dois anos, a escritora inglesa Hilary Mantel conquistou o cobiçado Man Booker Prize por um romance histórico, Wolf Hall, publicado agora no Brasil pela Editora Record. O livro explora a vida do controvertido Thomas Cromwell, que teria, segundo a história oficial, ajudado Henrique VIII a encontrar o caminho do inferno. Não foi bem assim, garante Hilary Mantel, educada segundo a doutrina católica romana - vale dizer, contra a história consagrada pela Reforma. Na escola, ela via Henrique VIII como um vilão e Thomas More como um santo. Quando cresceu, concluiu que as coisas poderiam ter sido bem diferentes.

A história de Henrique VIII já rendeu romances baratos que exploraram a guerra entre homens e mulheres em sua corte. Já a autora inglesa não estava nem um pouco disposta a comprar a visão feminista sobre Cromwell. Não se via, como mulher, obrigada a escrever sobre a infeliz Ana Bolena. Assim, trouxe o primeiro-ministro de Henrique VIII para o centro do palco, recontando a vida privada desse importante personagem da Reforma inglesa, cuja história não acabou nada bem. Cromwell foi decapitado e teve a cabeça espetada numa lança, na Torre de Londres, em 1540.

A impressão que se tem ao ler o livro é que você explorou ao limite a complexa personalidade de Thomas Cromwell, mas parece que ele vai ter uma sequência. Você acha que a história foi injusta com ele?

No ponto em que o livro termina, Thomas Cromwell ainda tem mais cinco anos para viver, durante os quais ele se torna mais rico, mais poderoso e, naturalmente, mais vulnerável. E ele mudará, parcialmente como resultado do que acontece na política, mas também devido à vida privada. A história popular, a ficção e a dramaturgia certamente foram menos justas com ele do que poderiam, retratando-o invariavelmente como vilão. Já os historiadores acadêmicos tendem a reconhecer a magnitude de seus feitos, mas não parecem se interessar nele como pessoa - o que é compreensível, pois esse não é o trabalho deles. Queria testar um novo olhar sobre a personalidade desse homem intrigante e seu papel no teatro que foi o reinado de Henrique VIII.

Combinar fato e ficção tem sido uma nova maneira de reescrever a história, ou, pelo menos, de escrever um romance histórico. Você concorda com os críticos que disseram ter Wolf Hall reabilitado a figura de Cromwell?

A obra política de Cromwell está bem documentada, mas não sua vida privada. Seus primeiros anos, particularmente, são obscuros. No entanto, preferi não especular. Tenho certa relutância em inventar. Tento imaginar, então, o que acontece com meus personagens fora do palco da história, em seus momentos de introspecção e silêncio. A história oficial responde a perguntas básicas, revelando muito sobre as ações mas pouco sobre as motivações de seus personagens. Quero escrever histórias íntimas, mas no contexto da época. É importante reconhecer que essa não é uma história polarizada, dividida entre fato e ficção. Entre eles existe um território nebuloso de interpretações. Se um novelista é bem informado, ele tem tanto direito de entrar nele como tem o historiador.

Você escreveu uma obra-prima sobre a Revolução Francesa publicada no Brasil, A Sombra da Guilhotina. Como você compararia a vida de Cromwell com a dos revolucionários franceses? É possível que personagens da história inglesa tenham influenciado os franceses?

Não acredito que os revolucionários franceses conhecessem muito sobre Thomas Cromwell, mas sabiam algo sobre Oliver Cromwell, descendente da irmã de Thomas. Ele era um gênio político e militar que se tornou "lord protector" (uma espécie de substituto do regente) no século 17, quando a Grã-Bretanha executou o monarca Charles I. É interessante notar que dois homens tão respeitados na corte fossem originários de família tão obscuras quanto os Cromwells. De qualquer forma, acho que os revolucionários franceses se espelharam mais na Roma antiga como modelo republicano. Thomas Cromwell é um homem muito diferente de todos aqueles descritos em A Sombra da Guilhotina, embora a face do poder político não mude de um lugar para outro ou de um século para outro.

Os Tudors parecem uma família feita para uma série de TV. Como você fez para evitar os estereótipos e conseguir um retrato de Cromwell distante do consagrado pela história?

Acho que a série Os Tudors pintou um retrato até cheio de nuances e muito interessante de Thomas Cromwell, mais do que o usual em dramas. Então, não posso dizer que me perturbou, o que não significa que fosse um retrato acurado dele, comumente descrito como um homem frio e introvertido. A série foi na direção contrária. Cromwell surge como um homem gregário, que recebe bem as pessoas e é uma boa companhia, embora um mau inimigo para se ter. Na segunda parte do livro tento justamente encorajar o leitor a pensar de modo mais original no personagem histórico.

No começo de sua carreira, você costumava escrever críticas de cinema para The Spectator. Você escreve romances históricos pensando em sua transposição para o cinema?

Tendo a pensar em imagens e, claro, meu conhecimento da estrutura fílmica acaba sendo útil. Fico inclinada a descrever o que é feito, o que é dito, usando essa descrição como sinalizadora da vida interior dos personagens, exato como faria um roteirista, embora como romancista tenha a opção de criar uma narrativa interna suplementar. Quando escrevo, não me importo com as outras formas que esse material possa tomar. Tento ser apenas transparente, desaparecer no passado.

Às vezes você usa material de sua vida particular, como no livro An Experiment in Love. Que coisas em comum você tem com Cromwell?

É uma pergunta difícil. Suponho que um escritor deva encontrar todos os seus personagens em algum lugar dentro de si. Mas sou tão frágil que você riria se eu começasse a me comparar com Cromwell. E mesmo nesses romances em que usei fatos de minha vida como inspiração, nenhum dos personagens tem a ver comigo. Personagens, nos livros, tendem a falar mais do que pensar. No meu caso, é o contrário.

Você estava trabalhando num livro não ficcional sobre uma escritora polonesa, Stanislawa Przybyszewska, que também escreveu sobre a Revolução Francesa. Na verdade, Stasia, a seu exemplo, tinha verdadeira obsessão pelo tema. Você diria que é só uma coincidência escrever sobre ela?

Tive de deixar o livro de lado, porque minha ideia original sobre ela mudou. Quero agora discutir ficção histórica e drama, em geral, mais do que explorar a vida de uma estranha dramaturga. Creio que estarei capacitada para escrever essa história com mais autoridade após concluir o segundo livro sobre Cromwell. Como Stasia, estudei história a fundo, buscando conciliar imaginação e registro histórico. Mas, ao contrário de Stasia, sou membro funcional da sociedade em que vivo, não me tranquei e passei fome enquanto escrevia sobre a Revolução Francesa.

WOLF HALL

Tradução: Heloisa Mourão

Editora: Record(588 págs., R$ 59,90)

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.