Passagem por Portugal

O mau tempo em Roma me fez perder a conexão do voo em Lisboa, mas me permitiu passar uma tarde e uma noite nessa cidade.

Milton Hatoum, O Estado de S.Paulo

09 de novembro de 2012 | 02h09

Peguei o metrô no Jardim Zoológico e desci na estação de Baixa-Chiado, onde vi outros turistas chineses. Digo outros, porque vi chineses às pencas em Veneza, onde cantavam nas ruas estreitas e também nas gôndolas pretas e douradas que navegam nos canais que serpenteiam a cidade. Chineses de todas as idades, alegres e com grana, cantando em voz alta uma canção que só eles entendiam. Esse canto de júbilo ecoava nas ilhas do Adriático e parecia dizer que o século 21 será predominantemente chinês.

Pensei isso enquanto observava numa livraria veneziana um mapa com a rota das viagens de Marco Polo, cuja aventura só pode ser igualada à do seu quase contemporâneo Ibn Battuta, o marroquino que percorreu mais de 120 mil quilômetros por regiões e cidades da África, Ásia e Oriente Médio.

E eis que, em plena Praça Camões, depois de olhar para a fachada da Manteigaria União, vi um bonde cheio de chineses exultantes, cantando outras canções, ou quem sabe as mesmas que eu ouvira em Veneza. Tive a impressão de que acenavam para mim, mas logo percebi que o aceno era dirigido a outros chineses sorridentes, sentados ao lado do quiosque da praça.

O bom humor desses turistas contrastava com o desânimo dos portugueses. Numa conversa com jovens estudantes lisboetas, um deles me disse que a crise econômica não é apenas uma crise, e sim a falência de todo um sistema que havia degenerado numa espécie de cassino planetário, onde investidores invisíveis movimentam bilhões de dólares e arrasam a economia de vários países.

Uma morena tatuada com flores e corações nos braços disse que 15 por cento dos jovens europeus não encontram trabalho.

"Mais de 80 mil jovens portugueses deixam anualmente o país. Abandonam os estudos e a família e vão viver na Alemanha, Inglaterra, França e também no Brasil..."

"Pois olha: estamos à deriva", disse o mais velho do grupo. "Vivemos entre o mar e o humor da sra. Merkel."

"Entre o oceano e o abismo", disse a jovem tatuada, mostrando uma manchete do jornal Público: "Governo propõe corte de 10 por cento nos subsídios de desemprego mais baixos".

Abro o jornal e leio uma frase na faixa de protesto em uma manifestação recente: "Mãe, estou no desemprego".

"Resta-nos a mãe", sorriu a moça, olhando as enormes letras pretas escritas na faixa. "Resta-nos a dignidade de estarmos vivos, de sermos portugueses."

Penso na gastança e na ganância dos bilionários e dos predadores de Wall Street, nos fabricantes de armas e nos senhores das guerras, na miséria infinita da África, América Latina e Ásia, na bolha consumista brasileira que pode espocar a qualquer momento. Penso na nossa euforia, que pode ser efêmera. E quase ao mesmo tempo penso nos países nórdicos, onde o capitalismo tende ao socialismo, onde a desigualdade social é mínima e o desemprego é quase um pecado mortal ou uma vergonha do Estado.

Agora todos estão calados, e quando a moça abre os braços para acolher um amigo, as flores e o coração crescem na pele morena. Dou adeus aos jovens da Praça Camões, pego o bonde 28 e desço no Largo das Portas do Sol. Contemplo o belo casario de Alfama, e essa paisagem me remete ao pouco que restou do centro histórico do Rio, de Salvador e Belém. Na outra margem do Tejo, as primeiras luzes de Almada. No meio do rio, um cargueiro da cor de ferrugem escurece no anoitecer. Ouço uma voz feminina, sotaque mineiro, e pergunto de onde ela é.

"De Araçuaí, Vale do Jequitinhonha", diz a voz mansa. "De Araçuaí Riobaldo trouxe uma pedra de topázio para dar a Diadorim."

Estudou literatura em Belo Horizonte e há dois anos mora e trabalha em Portugal. Disse que gosta muito de Lisboa, mas sente saudade do Brasil.

Você quer voltar para lá?

"Quero e não quero", respondeu. "A vida aqui está difícil, muitos brasileiros estão voltando, mas eu me apaixonei por um português e você sabe... Essas coisas do coração."

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