Luiz González Palma
Luiz González Palma

Passado que revive a cada olhar

Com influência da pintura, Escenas revê a história de exclusão e silêncio da América Latina

Simonetta Persichetti - Especial para o Estado,

16 Junho 2011 | 06h00

Existem muitas maneiras de contar histórias. Há os que olham para dentro e os que olham para fora. Os que usam palavras, os que usam imagens e os que usam os sonhos. O fotógrafo guatemalteco radicado na Argentina Luís González Palma prefere a fábula intimista, silenciosa, que desvenda uma miríade de possibilidades. Assim são suas imagens, assim é a exposição que trouxe para São Paulo: Escenas (Cenas), sequência da série Jerarquías de Intimidad, iniciado na Argentina em 2004, país para onde se mudou há mais de dez anos: "O interesse primordial é o de representar visualmente experiências internas que simbolizam a intimidade das pessoas e a complexidade das relações. Na tentativa de dar uma imagem a mundos internos que refletem ideias relacionadas com a falta, a perda", escreve o fotógrafo no teto de apresentação da exposição. E continua: "Na maioria das imagens há também uma reflexão sobre a multiplicidade do tempo interno, a ideia do outro presente dentro do mesmo, o tempo desmembrado e a relação que este tem com a memória imaginada".

 

Fotografias construídas para simbolizar os momentos íntimos de reflexão entre as pessoas, a reconstrução ou encontro de uma memória ou de um encontro perdido. A falta, a perda, a ideia do desencontro. Sensações que já existiam em suas imagens quando ainda habitava na Guatemala. A vontade de falar, de transformar um país onde a liberdade talvez fosse só uma palavra. As mesmas imagens silenciosas que ele produz hoje, com muitos anos de distância entre sua vida na Guatemala e sua nova realidade em Córdoba. Mas, se aquelas imagens em seu país de origem eram mais voltadas para uma crítica política, um reconhecimento da identidade de guatemalteco, nestas é a vida íntima cotidiana que se faz presente: "Sem dúvida essas imagens são mais pessoais", reconhece González Palma em entrevista ao Estado no dia da montagem de sua mostra. "Nem poderia ser diferente. Eu mudei, minha vida mudou."

 

Só não mudou sua maneira de produzir as fotografias. De alguma maneira, em seus temas que são a dor, o silêncio imposto, a incomunicabilidade, não existem apenas histórias pessoais, mas a história da América Latina, suas políticas de exclusão, sua identidade. Construções quase barrocas que fogem completamente da estética da contemporaneidade, imagens criadas a partir do laboratório do século 19: "A fotografia em si não me interessa, sou fascinado pela imagem, pela fotografia analógica. Minhas influências são da pintura e não da fotografia", comenta.

 

Sua narrativa visual é um diálogo silencioso. Mas ao mesmo tempo que traduzem as histórias de seu autor, suas imagens também levam o espectador a pensar sobre a sua vida, de refletir sobre si mesmo. "É impossível não nos espelharmos naquelas imagens. A obra se completa por quem a vê. Eu só a apresento."

 

E a mostra de formas alegóricas, simbólicas em que fábula e real se misturam e reafirmam o caráter ficcional da imagem: "Gosto de pensar no eterno retorno, ou seja, argumentos que podem ser retomados de diferentes maneiras, como se criassem realidades paralelas invisíveis". Simbolizar o que não pode ser vivido. Assim, nas suas séries editadas quase de maneira cinematográfica, em meio a rostos sobressaem molduras vazias, uma ausência pesada, velhos lustres de cristal, antigas salas de aula, pessoas sem rosto, um bolo de aniversário esquecido. São detalhes, aparentemente, mas funcionam como detonadores de memórias coletivas ou individuais, pouco importa. São fotografias que convidam a um diálogo, a um mergulho no nosso inconsciente que se materializa à nossa frente por meio das fotografias. Formas de falar quando não é possível fazer uso das palavras.

 

Esse ensaio é inédito, embora não seja a primeira vez que suas fotografias são mostradas no Brasil. Já esteve presente nos anos 1990 durante o Mês Internacional da Fotografia, participou da Bienal de São Paulo em 1996 e no ano passado palestrou e ministrou um workshop durante o 2.º Fórum Latino-Americano de Fotografia de São Paulo. González Palma é, sem dúvida, um dos grandes representantes da fotografia latino-americana, não na forma exótica ou folclórica, mas, mesmo assim, retratando tradições de uma cultura múltipla. Assim como é amplo o espectro do entendimento de sua arte: "Não sei se podemos falar em estética latino-americana, em relação ao meu trabalho não falo nem de fotografia. Prefiro talvez falar de arte latino-americana. Hoje, não importa onde uma obra é construída, mas sim sua linguagem sofisticada. Claro que existem forma pessoais de olhar, formas pessoais de criar. Talvez na fotografia documental seja mais fácil perceber essa estética latino-americana mais singular".

 

Poética. Fotografias ambíguas que misturam uma densidade profunda ao mesmo tempo que se oferecem à contemplação de forma delicada. A cor sépia utilizada em suas imagens nos remete de imediato a um passado que revive a cada novo olhar. Fotografias que não refutam o real, mas o deslocam, como afirmava o teórico de cinema André Bazin, e o imprimem, como a mágica do sonho. Fabulações poéticas criadas sobre um peso histórico de vivência: "Saí da Guatemala, mas é lógico que a Guatemala não sai de mim. Por isso, os temas são sempre os mesmos: morte, dor, velhice, abandono".

 

Não é de hoje que sabemos que a arte funciona como catarse para os nossos problemas. Não é diferente para Luis González Palma: "Claro que a arte me ajuda a superar meus fantasmas". E ela também nos ajuda a superar os nossos.

 

 

Uma poética sutil, mas contundente

 

Um rosto nos encara. Um menino sério. Quase uma face sem expressão, mas os olhos falam e indagam. Querem saber algo de nós. O retrato é uma das linguagens mais marcantes da história da arte e da fotografia. É pelo olhar do outro que nos construímos e nos conhecemos.

Os trabalhos de Luis González Palma trazem essa marca. A da descoberta, do conhecimento e da memória. Lembranças que não podem nem devem ser esquecidas. É por meio das imagens que González Palma se questiona sobre seu estar no mundo.

Ele se define como um romântico pós-moderno. Quer o belo, a sutileza do olhar melancólico, nostálgico. Uma busca romântica mais próxima do fim do século 19 do que do 21. Talvez por isso, a simplicidade de suas imagens (e a complexidade de suas séries e ensaios) nos emocionem. Uma poética sutil, mas nem por isso menos contundente. Olhos que nos convidam a ver. / S.P.

 

 

 

QUEM É

Luis González Palma

Fotógrafo guatemalteco

Nascido na Cidade da Guatemala (1957), vive e trabalha em Córdoba, Argentina. Entre os lugares onde realizou mostras individuais estão: The Art Institute of Chicago; The Lannan Foundation, Santa Fé (EUA); The Australian Centre for Photography; Palacio de Bellas Artes de México; The Royal Festival Hall (Londres); Palazzo Ducale di Genova; Museos Macro e Castagnino de Rosario (Argentina). Também participou de festivais de fotografia como Photofest em Houston, Bratislava (Eslováquia), Les Rencontres d’Arles (França), PhotoEspaña (Madri) e ainda em Cingapura, Bogotá, São Paulo e Caracas, entre outros.

 

 

 

Mais conteúdo sobre:
Luiz González Palma

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.