Passado nazista de Grass é erro de juventude, diz Rushdie

O escritor anglo-indiano Salmon Rushdie declarou que considera o Prêmio Nobel de Literatura Günter Grass um dos grandes escritores vivos, em uma atitude de defesa ao escritor alemão, que vem recebendo muitas críticas após admitir, na última sexta-feira, em entrevista publicada pelo jornal "Frankfurter Allgemeine Zeitung", ter feito parte da Waffen-SS, o corpo de elite militar do regime nazista, pouco antes do final da 2.ª Guerra Mundial.Rushdie disse ao programa "Today" da "BBC Radio 4" que o fato de Grass ter integrado a Waffen-SS é "decepcionante", mas acredita que o trabalho do escritor não deve ser invalidado em conseqüência de um erro cometido na juventude.Grass conta que integrou a Waffen-SS em "Beim Haeuten der Zwiebel" (algo como "Descascando Cebola"), autobiografia que invadiu as lojas nesta quarta-feira, 15 dias antes do previsto."A revelação (de Grass) é um ato de coragem. Ele é meu amigo e eu não pretendo mudar isso", disse Rushdie ao "Today". "Sua grandeza vem do fato de ele ser um gigante no mundo daliteratura que cometeu erros", acrescentou.O escritor John Irving também defendeu o escritor, chamando-o de "herói". "Grass é um herói para mim, como escritor e cidadão; sua coragem é um exemplo a ser seguido", declarou Irving à Associated Press.A autobiografia Grass conta, em "Beim Haeuten der Zwiebel" que, aos 15 anos, ele tentou alistar-se nas forças que tripulavam os submarinos do Terceiro Reich, mas foi recusado porque era jovem demais.Ele diz ainda que, em 1944, quando tinha 16 anos, recebeu como todos os jovens nascidos em 1927, uma ordem para alistar-se no exército alemão. Grass não foi integrante das forças alemãs, mas das SS, os corpos militares de elite criados em 1940 que chegaram a contar com mais de 950 mil homens e que eram o braço de combate do regime nazista de Adolf Hitler. "Durante o último ano da guerra, a Waffen-SS não aceitava unicamente voluntários", precisou Grass em suas declarações ao "Frankfurter". Comprometido com posições de esquerda e grande amigo do ex-chanceler social-democrata alemão Willy Brandt, Grass, que além do Prêmio Nobel em 1999 recebeu o Prêmio Príncipe de Astúrias, realizou uma crítica desapiedada da reunificação alemã em vários de seus livros.Em suas novelas se misturam de uma forma nada convencional o realismo, o macabro, a fantasia e o simbolismo, sempre a serviço do tema central de toda sua obra: a culpa coletiva. Prêmio NobelPara a Fundação Nobel, que todos os anos concede o prestigiado Prêmio Nobel, o passado de Grass não é razão suficiente para revogar o prêmio dado a ele em 1999. "Nunca aconteceu e provavelmente nunca acontecerá, nem mesmo no futuro (de um prêmio ser revogado)", declarou Jonna Petterson, porta-voz da Fundação Nobel, segundo informou nesta quarta-feira a imprensa alemã. "Uma vez concedido, o prêmio é para sempre", acrescentou Petterson.

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