Passado e presente em versos

A Estrela Fria, de José Almino, junta a nostalgia à cena urbana carioca

Raquel Cozer, O Estado de S.Paulo

05 de maio de 2010 | 00h00

Memórias. Filho de Miguel Arraes, Almino recorre a lembranças políticas na criação poética

 

Ao debate reducionista que coloca como os únicos caminhos possíveis para a poesia o lirismo derramado de Manuel Bandeira (1886- 1968) ou o rigor não-sentimental de João Cabral de Melo Neto (1920-1999), o sociólogo e poeta pernambucano José Almino dá uma resposta irônica no recém-lançado A Estrela Fria.

O autor de 63 anos vai de um extremo ao outro dos dois estilos na série Um Sujeito, com quatro poemas que aparecem ao longo da obra, sem no entanto perder unidade. Essa é apenas uma das sutilezas do terceiro livro de poesias de Almino, que tem lançamento hoje, às 19 h, na Livraria da Travessa de Ipanema, no Rio.

Nostálgica desde o título - o nome A Estrela Fria é uma metáfora sobre a infância, sobre algo que já passou -, a coletânea de versos rascunhados e retrabalhados ao longo dos últimos anos também ganha intencional viés contemporâneo, com traços inequívocos da cena urbana do Rio, onde vive o autor, presidente da Fundação Casa Rui Barbosa desde 2003. O último poema da série Um Sujeito, aliás, aparece precedido pela citação "Deixa solto, doutor", que, como explica a lista de créditos ao fim do volume, trata-se de uma "expressão de flanelinha carioca". "Enquanto pensava nos poemas, senti que devia mudar o registro, para não ser movido por um traço complacente da memória", diz Almino.

O tom de lembrança, no entanto, predomina. Filho de Miguel Arraes (1916-2005), nascido no Recife, Almino tinha 19 anos quando partiu para o exílio com a família, e recordações dessa forte presença política em sua trajetória voltam a todo momento em seus escritos. "Há uma certa melancolia ali, embora, sobretudo nos poemas recentes, eu tenha buscado reafirmar a alegria, algo para sair desse bode. Mas acho que determinados tipos de aprendizado, assim como um ceticismo e uma certa simpatia pela causas derrotadas, tudo isso repercute de maneira crítica."

Incorporações. Colecionador de trechos, em suas próprias palavras, Almino também recorre neste livro a um artifício que usou com sucesso em seu mais recente título em prosa, O Motor da Luz, de incorporar o texto de outros autores ao seu próprio. Além da expressão de flanelinha e de um "go, go, Johnny, go", de Chuck Berry, outras referências mais eruditas, assinadas por autores tão variados quanto Gertrude Stein, William Wordsworth, Federico García Lorca e Sousândrade, permeiam os versos do pernambucano.

A ESTRELA FRIA. Autor: José Almino. Editora: Companhia das Letras (80 págs.,

R$ 31). Lançamento: hoje, às 19 h, na Livraria da Travessa (Rua Visconde de Pirajá, 572, Ipanema, tel. 21 3205-9002)

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