Passadas as festas

No Brasil os anos se dividem em dias, semanas, meses, trimestres e semestres, mas também em dois períodos distintos chamados "Passadas as festas" e "Depois do carnaval". Como o ano brasileiro tradicionalmente só começa depois do carnaval isto significa que o período "Passadas as festas", quando tudo que ficou em suspenso durante o Natal e o ano-novo deveria ser retomado, na verdade fica esperando o carnaval - ou o "Depois do carnaval" - para recomeçar. Há quem diga que o "Passadas as festas" é um período tão abrangente que engloba o carnaval, a Páscoa, etc. e se estende por todo o ano, o que explicaria o fato de o Brasil estar sempre adiando o que precisa ser feito. O "Passadas as festas" de um ano engata no "Passadas as festas" do ano seguinte e acaba sendo o nome do ano inteiro.

VERISSIMO, O Estado de S.Paulo

22 de dezembro de 2013 | 02h09

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Será que a reforma política sai este ano?

- Sai. Passadas as festas nos dedicaremos a... Espera um pouquinho. Passadas as festas não vem o carnaval?

- Vem. E depois vem a Copa do Mundo.

- Ai, ai, ai. Acho que ainda não vai ser este ano.

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Outra fragmentação do tempo muito popular no Brasil é o minutinho. Estranhamente, o minutinho não é um minuto que passa mais ligeiro do que os outros. Ao contrário: como o seu sinônimo "dois segundinhos", passa mais lentamente. Em geral "um minutinho" não quer dizer um minuto pequeno. Dependendo da entonação, quer dizer "tenha paciência" ou "não me irrite". Como em:

- Senhorita, eu estou esperando há meia hora...

- Um minutinho.

- Não posso esperar mais.

- Um minutinho, por favor.

- Quando é que vão me atender?

- Em dois segundinhos.

- Não! Dois segundinhos não!

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Passadas as festas teremos mais tempo, mais disposição, talvez até melhor caráter. As próprias festas vão nos regenerar, seremos outros depois das festas. O Natal trará à tona os nossos melhores sentimentos. Danem-se as evidências, a humanidade tem jeito sim. O homem é bom. A mulher é melhor ainda. O sarrabulho do peru nem se fala. O Papai Noel pode ser falso, mas a emoção é verdadeira. E no ano-novo? Nos abraçaremos como se só estar vivo já fosse motivo para a comemoração. Ainda não morremos, oba! E estaremos cheios de planos. Este ano vou largar o cigarro, a bebida, o hábito de limpar os ouvidos com uma tampa de Bic e todos os meu preconceitos. Lerei mais, irei mais ao cinema, carregarei velhinhas para o outro lado da rua mesmo que elas não queiram - tudo isto passadas as festas. O próprio País melhorará, passadas as festas. Faremos todas as reformas necessária. Acabaremos com a miséria e a corrução. Seremos...

Espera um pouquinho. Acho que isto foi o que eu escrevi no ano passado.

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