Pasolini chega enfim aos palcos brasileiros

O autor é Pasolini, a peça se chama Orgia, o elenco traz duas mulheres e um homem e a imagem aí ao lado é bem sugestiva. Mas antes que o raciocínio do público enverede automaticamente por caminhos libidinosos, a atriz e tradutora Inês Aranha esclarece. "É uma tragédia, contemporânea, mas uma tragédia". Orgia é o primeiro texto teatral do diretor italiano Pier Paolo Pasolini, morto em 1975, a ser encenado no Brasil. A peça, que estréia hoje para o público no Centro Cultural Banco do Brasil, foi descoberta pelo diretor Roberto Lage, durante uma viagem à Europa. "Embora seja um cineasta renomado, Pasolini não tem sua produção teatral reconhecida", diz Lage."Vivi 11 anos na Itália e, mesmo lá, nunca soube de uma peça de Pasolini que tenha sido encenada", completa Inês, que está no elenco de Orgia ao lado de Cássio Scapin e Vanessa Bruno.Orgia, tragédia em versos que Pasolini escreveu em 1966, durante um repouso forçado por conta de uma hemorragia provocada por uma úlcera, coloca um casal (Scapin e Inês) trancado em um quarto num domingo de Páscoa. Em pouco tempo, aquele cômodo irá se transformar em uma arena de morte, ou em uma inevitável descida em conjunto ao inferno. "A partir do momento em que se isola no quarto, este casal passa a exercer sua solidão e sua impossibilidade de realizar todos os desejos reprimidos", diz Scapin. "Eles discutem uma relação de amor e ódio, questionam a razão de ainda estarem vivos e falam de todas as concessões que são obrigados a fazer para serem aceitos. Não é um jogo fácil, muitas pessoas do público não vão querer se enxergar naquele casal."Neste processo de ruptura do casal, a personagem da jovem atriz Vanessa Bruno surge como uma alternativa para as inquietações do homem representado por Scapin. Ela é uma mulher moderna e descompromissada, mas ainda assim, ou talvez por causa disso, esta nova relação também não ganha corpo. "Pasolini nos mostra um mundo sem saída, não há ponto final nesta história de tristezas e desencontros", diz Lage. "Ele era um autor muito à frente do seu tempo. Pasolini escreveu, nos anos 60, esta tragédia prevendo que a gente não teria mais chão, nem modelos. Fez um retrato de como nos sentimos hoje".A idéia inicial de Lage era a de acomodar o público no palco. Algumas limitações técnicas do teatro do Banco do Brasil, como falta de saída de emergência e dificuldade de acesso para deficientes físicos, obrigaram a montagem a obedecer o esquema tradicional de palco e platéia. "Sinto que o espetáculo ganharia muito com esta proximidade entre público e atores, mas infelizmente não foi possível. Talvez as pessoas até prefiram do jeito que ficou. Longe, elas vão sofrer menos". Orgia, espera Lage, pode representar a revelação de um Pasolini teatral. Pois aquela úlcera de 1966 foi prolixa: quando saiu do seu repouso forçado, o diretor tinha, além deste texto montado agora, escrito outros cinco. Todas tragédias. Todas inéditas.Orgia, de Pier Paolo Pasolini, no Centro Cultural Banco do Brasil, Rua Álvares Penteado, 112, centro, tel.: 3113-3651. De quinta a domingo, às 19h30. Estréia hoje para convidados e amanhã para o público. Ingresso: 15.

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