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Roberto DaMatta
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Pasárgada

Em 1968 ou em 1969, fiz um curso sobre Urbanização e Utopia. Éramos quase todos estrangeiros naquela Harvard onde a palavra estrangeiro não existia, pois, como me disse um Thomas Skidmore – saudoso e recentemente falecido –, “somos todos estrangeiros diante do conhecimento”.

Roberto DaMatta, O Estado de S.Paulo

22 de junho de 2016 | 02h00

Richard Moneygrand ministrou esse curso definido como uma reflexão sobre os dilemas do individualismo moderno e as utopias nascidas dessa extremada valorização da parte sobre o todo. De um sistema no qual os elos entre os homens e as coisas são mais importantes do que as relações dos homens entre si.

Lemos o clássico de Lewis Mumford, revisamos Platão, Thomas More e Fourier. Mas não esquecemos o Paraíso, sem deixar de lado H. G. Wells, Kakfa, Aldous Huxley, Burgess, Orwell e os modernos arquitetos os quais, como bons desenhistas, tentavam “solucionar” os erros de um sistema a ser redimido.

Fomos solicitados a falar das utopias de nossas sociedades. Um africano escreveu sobre as ideias de Kwame Nkrumah; um russo, sobre as utopias soviéticas; um francês, que sabia mais do que todos nós, abordou os escritos de Voltaire e Rousseau. Juan Porras y Porras, um mexicano aristocrático, exortou o que seria uma utopia caudilhesca para mostrar como os sistemas sociais fundados em elos pessoais seriam funcionais, caso não fossem atropelados pela modernidade do individualismo igualitário acasalado com a dominação burocrática legal.

Coube, porém, a um par de colegas americanos a apresentação mais radical. Para eles, a “República” era a desmistificação das utopias. O humano seria movimentado por um equilíbrio instável entre crises de carência e abundância. A história era uma inútil busca terrena das idealizações que agravavam a sensação de erro (e da culpa), porque condicionavam a vida real (sempre contraditória) a códigos transcendentais feitos no céu, que nos tornavam devedores. As Repúblicas democráticas e igualitárias voltadas para o mundo enfrentavam crises permanentes todos os dias. Nelas, tudo era crise, e a crise – frisavam – não era exceção, mas a realidade de suas perpétuas construções.

Jamais me esqueci desse trabalho que tenho plagiado ao longo de minha carreira. Os colegas americanos deram-me, num trabalho de semestre, uma diretriz para a vida.

Despertaram minha incredulidade nos sistemas fechados e estáticos. Só fui duvidar desta dúvida, quando, num antigo Estado de Goiás, tentei compreender sociologicamente os chamados “índios Apinajés” e comecei a admirar esses Jê-Timbira com o seu saudável e explícito dualismo (“tudo tem o seu contrário” – o mundo se divide em gente do Sol e de Lua), suas associações e, acima de tudo, sua moralidade sem culpa e epifanias. Para eles, tudo o que nos afeta (acidentes, doenças, desonestidade, ressentimento, etc...) foi “dado” pelos demiurgos de modo que não há o que pagar ou compensar, pois não existe um grupo humano que não seja defeituoso ou torto por natureza. Sabem que somos finitos e falam de uma “aldeia dos mortos, mas não postulam nenhuma imortalidade, pois até mesmo as almas – após uma longa, mas insossa vida no mundo dos mortos – morrem. Deste modo, não existem perseguidos nem tenebrosos perseguidores, esses avatares da discriminação e do autoritarismo.

Hoje, estou certo de que o humano é defeituoso, carente e encrencado. As utopias são ingênuas compensações inventadas por uma Europa para sempre enredada num realismo cruel e numa redenção impossível. A crise era a nossa marca e a República jamais seria um sistema estático, mas um modo de vida a ser permanentemente corrigido. Ela, entretanto, só poderia funcionar com bom senso, amparada por uma ética de honestidade. A democracia – se ainda me lembro da conclusão dos meus jovens colegas – não resolve, ela é uma tentativa de resolução.

Findo o curso, eu estava mais para Orwell do que Platão. Foi quando eu me lembrei do Brasil e do sempre lúcido e antiutópico Bandeira. O Manuel que, na sua arrebatadora simplicidade, abafa a fanfarronice ideológica corrente e sussurrava uma utopia tão real quanto profética:

“Vou-me embora pra Pasárgada/ Lá sou amigo do rei/ Lá tenho a mulher que eu quero/ Na cama que escolherei”.

A esperança é que os “reis” segurem esses amigos que confundem parentesco com papéis públicos, andam de bicicleta, montam em burro brabo e continuam convencidos que ainda podem, por ventura, subir em pau de sebo!

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