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Partir é nosso destino

Marta e Victor me ensinaram como viver em Berlim, seus lugares secretos, onde comer e beber, o que evitar, como me divertir sem gastar

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S.Paulo

14 de novembro de 2021 | 03h00

Em março de 1982, desci em Berlim para um dos períodos mais estimulantes e felizes de minha vida. Fui convidado pelo Daad, Serviço Alemão de Intercâmbio Cultural, era um dia escuro, o inverno terminava. “Estou aqui sozinho, nada sei deste lugar, tenho de aprender tudo. É como renascer.” 

Estava com 46 anos, tinha deixado uma ex-mulher e dois filhos para trás, Daniel e André. O funcionário do Daad levou-me a um apartamento que um físico alugara à instituição, enquanto trabalhava na Suíça. Fiquei horas, meio catatônico, lendo lombadas de livros de física e matemática em alemão, até que a campainha soou, entrou Victor Klagsbrunn, economista brasileiro, exilado, que me pôs no carro e me levou à casa dele. 

Jamais esquecerei daquela noite, ao ser recebido pelo sorriso de Marta, mulher dele, loira, cabelo cacheadinho. Jantamos, assistimos a um jogo de futebol entre Alemanha e Brasil, perdemos. Havia dezenas de amigos do casal, as línguas se confundiam, bebi muita cerveja e comi saladas e carnes. Começava ali uma amizade que dura 39 anos.

Além de Ute Hermanns e Henry Thorau, Marta e Victor me ensinaram como viver em Berlim, seus lugares secretos, onde comer e beber, o que evitar, como me divertir sem gastar. Em uma estação de trem, ela me apresentou ao currywurst, salsicha com molho de ketchup e curry, inventada por operários nos anos 1920. Me mostraram o “outro lado”, ou seja, Berlim Oriental. Marta me deu o endereço do Arsenal, a Cinemateca de Berlim, vizinha à minha casa. Ali tive poltrona cativa, assisti a muitos filmes russos com legendas em alemão, uma viagem. 

Foi Marta quem me disse: vá conhecer Nefertite, a mulher mais bela da antiguidade. Me apaixonei, ficava horas a contemplá-la. Conto isso em O Verde Violentou o Muro. Um dia, eles convidaram: “Vamos a Praga?”. Assim, de repente. Complicada burocracia, mas fomos. 

Luana, a filha deles, também foi. Era criança. Quando ela se cansava, um de nós a carregava nos ombros. Fomos a museus e catedrais, palácios, livrarias (onde havia livros de Jorge Amado, mas não de Kafka). Íamos comprando dinheiro checo com os cambistas locais e, de repente, descobrimos que estrangeiros só podiam pagar as coisas em dólar ou marcos alemães ocidentais. Ficamos com os bolsos recheados de cédulas inúteis. Não existia cartão de crédito.

A amizade com Marta e Victor continuou, cresceu no Brasil, ela trabalhou na Academia Brasileira de Letras por um tempo. Meu fardão da ABL se hospeda na casa deles no Rio. Não se viaja para lá e para cá com ele na mala. 

Há dez dias, Victor e Marta estavam em Karlsruhe, visitando os netos, filhos da Luana que carreguei no ombros, quando um aneurisma explodiu no cérebro dela. Esse “assassino silencioso”, na gíria médica. Escapei de um. Marta não. Há dias chocado, só penso nisso. Neste momento, as cinzas dela estão em uma urna na Alemanha.

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